O BISTURI II
Segundo episódio
-O senhor Cidadão já foi operado.
Um bote à vela sulcava a ondulação do estuário do Tejo...O Sol descia suavemente sobre o Mar da Palha que marulhava as águas nos escolhos da margem...
A o aroma da maresia transportava o pio das gaivotas... Sonho agradável... Uma voz melodiosa e angelical vinda de longe, fazia-se sentir.
-O senhor Cidadão já foi operado...
Estranho...
Ainda agora este praça se esticou na mesa e já
ouvia uma vozinha cristalina dizendo que tinha sido operado?!
-Senhor Cidadão? Está-me a ouvir?
-Sim...
-Sou a Tatiana e estou aqui ao seu lado para o que fôr
preciso...
Insólito... Havia que responder a tal apelo onírico...
-Que voz tão linda vinda de uma pessoa com um nome tão bonito...
Tatiana... Será que cheguei ao céu e estarei ouvindo um anjinho?
-Não, senhor Cidadão, sou de carne e osso e o senhor encontra-se
no bloco operatório.
-De facto, para isto ser no céu falta a música clássica.
Entre dois silêncios, soou outra voz masculina.
-Recuperou a consciência e o humor...
Aquilo não devia ser sonho...
Este rapaz tentou abrir os olhos para poder conhecer a
dona daquela voz...
Não conseguiu... Sentia as pálpebras pesadas... Insistiam
em se manter unidas, juntas, coladas...
-Bem queria ver essa menina mas não consigo abrir os olhos...
-O senhor está em recobro. É natural que ainda não consiga abrir
os olhos.
-Ouça-me esta. Você é alentejano?
-Não, mas se o fosse, que mal havia nisso?!
Novamente o timbre masculino soando detrás da nuca...
-Um algarvio, um beirão e um alentejano
juntaram-se para debaterem o que no mundo atingiria maior velocidade...
-O que atingia maior velocidade? Como assim?
-O que seria mais rápido... Disse o
algarvio que o que atingia maior velocidade era a luz, porque a luz se acendia mal
ele ligava o interruptor. O beirão deu a sua opinião assegurando que o pensamento seria mais rápido do que a luz porque antes de acender a luz, já tinha pensado em
o fazer. Então chegou a vez do alentejano. “Ainda mais rápido do que isso
tudo, é a caganêra... Quando nos dá a caganêra, nã temos tempo nem de
pensarmos, nem sequer de ligarmos a luz!”
Cá o Cidadão bem se riu por dentro ficando com a
impressão que os músculos faciais efectivamente não se lhe contraíram...
-Desculpe... Não consigo abrir os olhos... O senhor é o doutor
que me acompanhou na evolução da doença?
-Não. Porquê?
-É que o seu timbre de voz é idêntico ao dele...
-É natural. Estudámos todos na mesma
casa... Sou o seu anjo da guarda... Recorda-se?
-Para anjo, é um bocado pecaminoso...
-E lá está ele.
-E a menina, quem é?
-Estagiária.
-Gostava de a conhecer...
-Tenha paciência mas você, daqui vai direitinho
para a sala de internamento.
Fez-se novo silêncio.
Sentia que alguém mexia nos pensos colados ao peito e nos
pneus da barriga...
Estariam a retirá-los...
Com tanto pêlo e não se sentia dôr alguma.
A cama trepidava, rolava.
Ouviam-se sussurros e passos de pessoas.
Provavelmente seria a viagem no sentido inverso... O regresso...
Nova tentativa de descolar as pálpebras... e nada...
queria ver mas não conseguia...
-Com que então o senhor (nome completo)
veio parar a esta casa? Sabe quem sou?
Depois de uns segundos a rebuscar aquele timbre de voz e
ligeiro sotaque, veio à memória uma menina com quem este praça deixara de
contactar há mais de vinte e sete anos...
Uma vizinha de outras paragens que nessa época teria
treze anos...
-Olá, é a Ayesha!
Disseram-me que a menina... desculpe... agora deve ser uma senhora, trabalhava
aqui.
-É verdade. Quem diria que um dia nos
voltaríamos a encontrar aqui.
-O que é feito de si?
-Olhe, tenho dois filhotes na escola.
Você tem a memória auditiva muito aguçada!
-É verdade. Auditiva e olfactiva. São sentidos que se desenvolvidos
nas noites de campo e nas caminhadas por essas serras adiante.
-Abra os olhos.
-Não consigo, menina... desculpe... senhora...
-Vá, tente.
-Não vai.
-Abra os óóóllhos, senhor!
-Tanto que eu gostava de o fazer, para lhe poder espreitar as
feições! Ainda há bocado tentei para poder
conhecer uma estagiária detentora de voz
angelical...
-Você está na mesma. Você não mudou,
mesmo! Sabe? Se você não abrir os olhos não me chega a ver as feições porque
vou acabar o meu turno!
-Que horas são, afinal?
-Três e meia.
-Da tarde, ou da manhã?
-Da tarde!
-De que dia?
-Do dia em que você foi operado.
-Que engraçado. Ao fim de tantos anos, agora tratamo-nos por
“você”.
-Pois é, pois é!
Sentia que a enfermeira arrancava o penso que segurava o
cateter enquanto a conversa ia fluindo... sentia as dores agudas de pêlos
sendo arrancados...
-Posso dizer uma asneira?
-Diga à vontade...
-Chiça!
-Chiça?! Chiça não é uma asneira!
-Ai não é ma asneira? Vá lá consultar o dicionário de
Alemão-Português e logo saberá!
-Como há muito tempo! E este Cidadão não
mudou mesmo! Agora o senhor vai tentar levantar-se. Lentamente...
Assim foi. Habituado às abdominais, vai daí, num impulso e
sem recorrer à alavancagem das mãos...
-Caramba! A coisa deu-se!" " "
Um ruído semelhante a roupa rasgando-se atravessou todo o
quarto.
Acabadinho de sair do bloco operatório e logo entornara o
caldo!
-Ai senhor Cidadão! O que fez? O que foi
arranjar! Que desgraça!!!! Meu Deus! Valha-nos a Virgem Santíssima! Não se mexa! Fique quieto, por favor! Vou
chamar alguém que nos ajude!
-Esse homem é doido! Eu bem vi desde o início! Devia estar na psiquiatria!
O senhor Hitchcock falou e disse. Perdeu uma oportunidade
de estar calado. Também, coitado, ainda não houvera dito nada...
-Tenha calma menina, desculpe... senhora...
Sentindo dores, cá o Cidadão passou
suavemente a mão direita pela zona submetida à intervenção cirúrgica...
-Não parece ser daqui... Ora deixe cá ver... melhor...
Inclinando-se suavemente para a esquerda, passou a mão
direita pelo traseiro... depois pelo cós...
-Ah! Cá está! Foi daqui! Danos cú-laterais...
-Não me diga que...
-Não digo, não senhora nem muito menos é o que está para aí já a pensar... Diga-me cá a menina, desculpe, senhora,
se estas calças são Levis...
-Se são Levis? Não! São roupa hospitalar.
Porquê?
-E não são caras?
-Não! Porquê?
-É que acabaram de se rasgar... Deixe cá apalpar melhor... Desde
o cós... até meio da nalga esquerda... Eu bem avisei que me ficavam apertadas! Cá têm o resultado.
-Ai que alívio, senhor meu Deus! Você
está mesmo na mesma!!!
-Pois é, menina, desculpe, senhora. Vão-me substituindo os
casquilhos do corpo mas este espírito mantém-se inalterado... mas isto está a
doer... será normal?
-De um a cinco, classifique as dores que
sente.
-Talvez... Um!
-Dispa essa blusa e essa calça pronta para o caixote do lixo e depois
vista esta roupa, se faz favor...
Foi ao toque do tacto que se trocaram os farrpinhos e a
seguir houve que arrear a giga...
Um cansaço apoderara-se do corpo e como ostras, as
pálpebras insistiam em se manter cerradas...
Coisa de meia hora depois a dor agudizou-se, um ardor foi-se
instalando e a comichão era tal que este praça teve de recorrer ao interruptor
de chamamento...
A intensidade das dores era proporcional ao descerramento
d as pálpebras.
Recuperada a visão constatou que a cama então vazia,
tinha ganho um novo camarada e ao lado, o senhor Jorge vagara a sua...
Regressou a Ayesha...
linda como sempre fora.
A serenidade do seu rosto moreno, redondo mantinha-se
inabalável e seus cabelos negros, ondulados faziam com que o Cidadão
se olvidasse das padecências.
-Olá! Já te vejo. Continuas linda como o eras dantes... A tua
pele mantém-se morena...
-Não te esqueças que a minha mãe é goesa.
-Pois...
-Porque chamaste?
-À bocado pediste-me para classificar o grau da dor que
sentia... é que subiu para 2,75... ou 3,
talvez...
-Já te trago uns sedativos.
-Obrigado.
Cinco minutos após...
-Aqui tens. Bebe com esta água. Sabes, o
meu turno terminou. Diz-me, mais uma coisa. Tens a mesma mulher do casamento a
que fui convidada?
-Exactamente! A minha Companheira mais do que tudo e que me tem
o castigo de me aturar as chatices!
-E tú as dela...
-Claro! Preocupo-me mais que as minhas lhe sejam leves...
-E filhos?
-Dois rapazes.
-De que idades?
-Crescidos, criados, bem nutridos e encaminhados...
-São assim como tú?
-É difícil... Quis o destino que o primeiro fosse mais espartano
e conservador. Da direita à esquerda,dos mais liberais aos mais conservadores, dos mais novos aos mais velhos, debaixo do nosso tecto ninguém impõe as suas convicções, mas todos as expomos, as partilhamos, as discutimos e nos respeitamos nos ideais, nos
usos, nos costumes e nas opções de vida...na hora dos sufrágios, cada um vota segundo a sua consciência... E assim, cada um segue o caminho que
entende dar-lhe maior realização e felicidade...
-Vou-me embora. Gostei de te voltar a
ver.
-Mal de saúde, mas isto arriba...
-Com esse espírito, a convalescença tornam-se-te
mais fácil... Adeus. Só volto depois de amanhã e com o ambulatório não sei se
ainda cá estarás...
-Adeus Ayesha,
felicidades para ti e para os teus.
Deu para ver o trajecto para a casa de banho e regressar sem embarrancar nas camas dos vizinhos.
Sentia que as energias falhavam mas com o alívio das dores, tentava manter os
movimentos enérgicos, coisa observada pelo quarto
elemento e pelo senhor Hitchcock...
-Senhor... a operação foi difícil?
-Sei lá! Foram os médicos que tiveram o trabalho todo.
-Não é isso. Ainda há bocado você aqui chegou e já se põe de pé,
anda de um lado pra o outro como se nada lhe tivesse acontecido...é que a
seguir, sou eu!
-Ó amigo! O problema principal está nas nossas mentes! É como
levar uma perna às costas!!!
-Só de o ver, até me apetece ir já à faca!
-Faça assim. Separe a mente do corpo mas sem a decapitar. Pense
positivo. Pense optimismo. Deixe de matutar na coisa ruim. Confie no trabalho
dos clínicos! Pense que você não é o primeiro que aqui veio parar e que isto é
a rotina desta gente! São banalidades!
-Não lhe dói?
-Você a dar e o girico a fugir-lhe! Dói porque que a actividade
sensorial está nos conformes! A dôr é um simples sinal de alerta.
As horas escoavam tédias.
Chegou a menina da janta...
Mais um caldinho, um peixinho e uma mousse de morango...
Enquanto o televisor
debitava as últimas do país e do mundo, pela ampla janela as luzinhas
cintilavam...
O manto negro da noite cobrira a paisagem por inteiro.
O semblante do senhor Hitchcock
dava ares de descontracção...
Nesta noite olhava o televisor com outra determinação...
Comendo silenciosamente, o quarto elemento não dizia uma única palavra...
-Ó hóme! Não pense mais nisso!
O quarto elemento estava certamente mal-humorado.
-Irra, que convencidos! Vocês pensam que a galinha da vizinha é
sempre melhor do que a vossa!!! Convença-se que com essa maneira de pensar, as
coisas se lhe tornam mais difíceis de ultrapassar! Isso é uma espécie de autoflagelo!
-O que é isso?
-Repare. Na páscoa já viu aquelas reportagens na televisão em
que os filipinos se chicoteiam asi próprios para se assemelharem a Jesus Cristo
durante a via-sacra?
- Como as pessoas
que cumprem promessas, arrastando-se de joelhos no recinto de Fátima até sangrarem?
-Pois, por exemplo! Você não está aqui para cumprir uma promessa
pois não?
-Não. Mas estou aqui para ser operado!
-Pois bem! Se a operação lhe correr bem, cumpra a promessa da
autoflagelação no recinto de Fátima!
-Só se fosse doido!
-Então, está a ver a nóia! Porque se flagela psicologicamente
aqui? Acredito que até já teve suores gelados e estados febris por causa da sua
situação!
-Pois tenho! É da doença...
Não é da doença, não! É do medo que você sente! O que você sente
é pânico à operação! Coração ao largo, home! Isso não lhe adianta e só lhe
complica com o sistema cardiovascular!
-Tem razão...
Ao Telejornal seguiu-se
outro elo...
O da debilidade de um concurso em horário nobre onde
participantes esperançosos nuns cobres se sujeitam às humilhações verbais do
rapazola arrogante e convencido que com esgares desdenhosos, péssima dicção devoradora
de sílabas e redundante nos termos, recorre a terminologia indigna da condição humana e a movimentos
bruscos, comprometedores das fixações da cabeça ao tronco, granjeando-nos com improvisado
léxico da verborreia portuga.
“Corja de azeiteiros,” “cambada de arvéolas,” “gente fraquinha,” “súcia
de asnos,” “atrasados mentais,” "completamente ridículos," “ data
de burróides,” ”macacóides,” “ “infantilóides,” “debelóides,”etecetera e tal, tomando por certas algumas soluções
erradas e como erradas determinadas respostas acertadas pelos concorrentes.
Mais vale passar pela situação degradante de correr à cadeia
de hipermercados comprar um pacote de manteiga, no flashmob nacional de 50% de desconto sobre o valor das
compras superiores a 100 €uros, oportunamente lançado no dia do consumidor... desculpem, do Trabalhador, com o
povo galgando prateleiras e expositores numa atitude terceiromundista semelhante ao assalto aos camiões e aos pára-quedas com caixotes de ajuda humanitária lançados pelas aeronaves fretadas pela Organização das Nações Unidas, que infelizmente noutros termos cá o Cidadão houvera presenciado nas margens orientais do hemisfério sul do planeta Terra sacrificado pelos malefícios da cobiça de humanos sem escrúpulos que do pó vieram e no pó se transformarão, desconhecendo porém que a sua vida terrena é uma mera passagem de algo para algo!

Em abono da verdade, ao apercebe-se da mobilização das massas nacionais, este Cidadão recorreu à telefonia fazendo zapping's por tudo quanto era emissora na suposição de que algum Orson Welles do Séc XXI tivesse resolvido repetir a gracinha de 1938, reportando a hipotética Guerra dos Mundos, com o dramático relato de uma invasão extraterrestre.

A pobreza de espírito do tal concurso deixou o Cidadão mais doente do que até então estava!
Ao que aquelas pessoas se sujeitam!
Vindo o carrinho do chá e das bolachas já o senhor Hitchcock ferrara a dormir perante a
expressão alheada do quarto elemento
que sentado à mesa, ia cruzando olhares com o Cidadão...
-Bon ápeit!
-Obrigado, amigo. Há muito que não ouvia
assim umas palavras de conforto e ainda por cima vindas de alguém que acabou de
passar por elas... Lá em casa...
-Eu sei... Escusa de o dizer... Coragem e pouca cisma!
Mais uma drágea ingerida e vai daí, foram desligadas as
luzes e o televisor...
-Até amanhã, camaradas!
-Até amanhã.
-Até amanhã!
Regressou a voz do enfermeiro de turno.
A noite refrescara havendo que cobrir as orelhas com o
cobertor de lã.
Não fora necessário mais do que um quarto de hora para
que com as intermitências dos tubos fluorescentes este praça só regressasse dos
braços de Morfeu na madrugada do dia
seguinte...
Termómetro de ouvido, medidor de pressão arterial,
saquinhos de soro, outros artefactos esquisitos e um punhado de auxiliares e
enfermeiros invadiu o sossegado compartimento.
Era a hora do senhor
Hitchcock e do quarto elemento um
pouco confusos, alinharem no mesmo ritual pré-operatório dum Cidadão
consciente que lhes tornara os minutos mais fáceis...
De quando em vez olhavam nesta direcção, tendo um sorriso
confiante e um de piscar de ôlho por correspondência...
- Que Deus vos acompanhe.
-Olá, senhor! Hoje vai ter alta hospitalar. Depois de o senhor
doutor o ver e se tudo correr conforme o previsto, vai vestir as suas
roupinhas, arrumar as suas coisinhas e aguardar que os seus familiares o venham
buscar. A enfermeira chefe irá explicar-lhe quais são os procedimentos a tomar
e para a semana regressará a uma consulta de rotina para verificarmos se tudo
corre conforme o previsto.
Outra enfermeira! Diacho p'ra tanta enfermeira! Um tipo queria reflectir e não podia! Um desassossego completo!
-Gaita! Agora que me estava a sentir aqui tão bem, distante do
mundo e do rebuliço, longe de tudo e de todos e sem preocupações de maior, é que me mandam embora? Não poderei ficar mais uns dias a
descansar?
-Não senhor! Precisamos vagar a cama. Isto é serviço ambulatório.Sem preocupações de maior?A doença não o apoquenta?
-Ao menos até saber como correram as operações aqui aos meus
companheiros de quarto!!!
-Tenha paciência...
-Pronto! Está bem! O que havemos de fazer! A menos posso tomar
duche?
-Ó homem!!! Hoje não! Desmanchava-lhe o penso! Lave a cara e as partes baixas se quiser!
Como se dor não houvesse, lavaram-se os dentes e as
partes pudengas, vestiram-se os trapinhos civis, tomou-se o pequeno-almoço composto
de pão, doce e café-das-velhas, retribuindo
este praça o sorriso e um obrigado àquelas admiráveis senhoras que meio
intrigadas e confusas, deveriam estranhar a amabilidade vinda de alguém pensado, agrafado, cosido e recém-saído
do fio da navalha cirúrgica.
A propósito, caro ciberleitor, um sorriso não nos custa
nada e induz muita esperança.
É uma lembrança que perdura por toda uma vida...
Um sorriso não pode ser comprado, pedido emprestado ou roubado, e não
tem qualquer utilidade enquanto não for esboçado!
Se na sua vida encontrar alguém cansado, distante,
absorto, aflito demais para lhe poder esboçar um sorriso, deixe-lhe o seu, singelo,
sincero, simples e optimista porque mesmo que alguém arrogante dispense
sorrisos, ninguém precisará tanto de um sorriso quanto aquele que não tem
sorrisos para lhe oferendar...
Mesmo que o seu autor não tenha palavras, domine outra língua, não se saiba
expressar ou seja surdo-mudo, um sorriso sincero no momento certo transmite tudo de bom a quem
o recebe.
Agora imagine ciberleitor, se quem o recebe, também lho
retribui?
No mínimo, será gratificante!
Quanto aos animais, esses sorriem-nos com o abanar da cauda...
Foi imbuído em profundos pensamentos que este rapaz não
deu pela visita do médico e de tantos outros acompanhantes de batas brancas!
-Sim. Senhores... Reparem neste tipo de costura... Devido à
delicadeza da cirurgia com riscos acrescidos para o paciente, tivemos que
recorrer a um ponto diferente do comum... foi a primeira vez... a ver se isto
corre bem...
-Foi uma costura diferente, senhor doutor?
-Um bocado delicada... Durante as próximas três semanas você
poderá vir a sentir bastante desconforto... mas se tudo correr conformo o
previsto... fica em condições...
-Disse o doutor que aplicou em mim uma nova técnica de costura?
-Okai... uma vez que lhe foi substituído um elemento estranho e
de maiores dimensões... foi aplicado
ponto em xis... para que o trabalho não se desmanche...
-É a isto que se pode designar por ponto-cruz...
Os acompanhantes de bata branca saíram por uns instantes
do quarto, percebendo-se que abafaram os risos enquanto o médico compenetrado
em sérios esgares, vociferou...
-Que engraçado!!!
-Que engraçado?! Eu é que não acho graça nenhuma! A mim é que me
dói, me arranha e isto faz-me uma comichão do catano!!!
Mais risos vindos do exterior!
-Então? Colegas? Querem assistir a isto, ou não?!
O exército de bata branca voltou a circundar o Cidadão...
-Daqui você segue direitinho para casa sossegar e durante as
próximas semanas vai tomar os medicamentos que lhe irei receitar... Não faz
esforços, não bebe álcool, não anda n a rua, não entra em contacto com pessoas
doentes, constipadas, etc, enfim, durante três semanas vai fazer uma vida celibatária!!
-Não me diga que não vou poder saltar de pára-quedas, fazer Bungee jumping ou fazer caminhadas?!
-Que género de caminhadas?!
-Montanhismo. Trepar montanhas...
Rostos de espanto entrecortaram-se em finos risinhos.
-E saltar à corda?
-Este homem não pode estar quieto! Este homem é irrequieto!Este
homem é doido! Este homem não existe! Não brinque com coisas sérias! !! Faça o
que eu lhe recomendo e sossegue senão vou ter que lhe receitar metilfenidato!
-Mais outro?! Assim não será necessário tomar o pequeno-almoço!
-Tem aqui este número de telefone. Se as cosas se complicarem,
contacte de imediato os nossos serviço e passe bem.
Assim foi!
Bacalhau esticado e receitas passadas em
triplicado, chegou a hora das despedidas ao pessoal hospitalário como se
tratasse de uma amizade travada a longa data em que este praça agradeceu do
fundo do coração todo o trabalho e dedicação por eles dispensados, deixando o manifesto
de admiração, elogio pelo trabalho desenvolvido, dedicação, paciência e estômago
a que estes profissionais de saúde se tem de sujeitar, vastas vezes incompreendidos
e maltratados pelos utentes.
Éne rostos sorridentes e expectantes foram
deixados por detrás das portas bamboleantes, regressado a caselas sem saber
novas dos camaradas de quarto, e ao fim de três dias, dando uma vontade imensa
de cronicar.
Cronicar, mas devagarinho!
Era premente limpar o pó ao teclado, alimentando o
bendito vício da escrita...
Duas semanas após, houve um primeiro regresso ao “local
do crime...”
Lá estavam os mesmos
médicos, as mesmas enfermeiras, os mesmos assistentes, os mesmos estagiários e
os mesmos auxiliares...
Engraçado como todos davam ares de terem reconhecido esta
praça...
Chamado ao consultório e examinada a costura o médico
rodeado pelo exército expectante de bata branca murmurou...
-Isto não ficou nada de bom... Isto não correu bem...
De seguida gritou!
- Meus senhores! Isto está óóóptimo!
-Dããsse! Ò doutor! Assustou-me! Ganhe calma!
-Sabe que esta foi uma intervenção algo delicada? Foi uma
intervenção que envolveu riscos?
-Atão nã sei? Comigo, na minha vida tem sido tudo de risco, tudo
delicado! Estou habituado! Sabe... Doutor... Quando novo, aí pelos meus
dezasseis anos ingressei num curso de desenho técnico onde me habituei a
dominar o risco...
-E você com ideias! Quem mexeu neste aparelho? Isto
ficou desafinado! É sempre a mesma coisa! Mexem, mexem, mexem e depois quem se
segue que é que tem de afinar os graus!
A conversa era agora direccionada para os assistentes de
bata branca cujos semblantes se carregavam...
-Ó Doutor! No tal curso de desenho técnico que lhe referi, o arquitecto bem nos
avisava que o compasso e a mulher não se emprestam a ninguém... explicava ele que quando no-los devolvem, ambos vêm diferentes, desarticulados, desatarraxados, desafinados.. e quando por nós reutilizados, os traços nos saem irregulares e o projecto acaba borrado!
-O meu amigo tem as suas piadas... mas está correcto.. o que
disse é bem verdade...
-No compasso ou... na mulher?
-No compasso, claro!! Bom... (pigarreando)Vamos ao que interessa... ora bem.. temos
aqui um paciente cujos tecidos regeneram com bastante facilidade...facilitando a cicatrização...
-Kiwis e pau-d’arco... Senhor Doutor...
-Kiwis e pau-d’arco?
-Tenho por hábito terminar as refeições com um kiwizito e à noite, tomar uma
infusãozeca de pau d´arco, prá sossega...
-Os colegas estão ao ver? São hábitos alimentares saudáveis
que resultam a longo prazo... o chá de pau d’arco é óptimo para combater os
problemas de estômago, desenvolvendo imunidade contra ataques virais...
-Chá, não! Infusão...Senhor Doutor...
-Como assim?
-Porque chá é o nome específico de uma planta... A Camellia sinensis com as variantes do chá
preto, chá verde, chá branco, chá príncipe, cujas folhas podem ser oxidadas, maceradas...
-Vá dar aulas de botânica e de medicina
tradicional para outra freguesia! Isto não é Vilar de Perdizes, é um hospital. Não é um congresso de medicinas alternativas com o Padre Fontes.
-Que indelicadeza...
-Para terminar e porque tenho mais
doentes para assistir, posso-lhe seguramente afirmar que durante todo este processo,
a sua postura e a sua atitude ajudou bastante no sucesso da intervenção cirúrgica, tanto a nós que aqui aplicámos esta técnica pela primeira vez, como a si, para que as coisas nos tivessem corrido de feição e quando precisar de nós, cá estamos
para o receber! Felicidades!
-Obrigado Doutor... Para lhe ser sincero, gostei de aqui estar.
-Vá tomar a medicação. Daqui a uma semana pode meter-se nas suas
aventuras mas sem abusos, e duas semanas depois volte para o voltar a observar. Passe pela secretaria e acerte a data da consulta.Entretanto
se as coisas lhe complicarem, tem aqui o número de telefone para poder contactar os nossos
serviços.Sempre ao dispôr.
Com o derradeiro frenético aperto de mão cruzado entre médico e paciente, abalou este praça com a esperança, a fé e a confiança de um dia ali voltar pois Deus fez bela a amizade que nos guardará em
unidade e decerto um dia nos tornará a reunir...
Desculpem, são resquícios do escutismo e das introspecções que se praticam por estas bandas...
Ah!
Mergulhado num oceano de pensamentos, ia esquecendo o essencial... esta crónica teve inicio aqui.