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Este militante anti-cinzentista adverte que o blogue poderá conter textos ou imagens socialmente chocantes, pelo que a sua execução incomodará algumas mentalidades mais conservadoras ou sensíveis, não pretendendo pactuar com o padronizado, correndo o risco de se tornar de difícil assimilação e aceitação para alguns leitores! Se isso ocorrer, então estará a alcançar os objectivos pretendidos, agitando consciências acomodadas, automatizadas, padronizadas, politicamente correctas, adormecidas... ou espartilhadas por fórmulas e preconceitos. Embora parte dos seus artigos se possam "condimentar" com alguma "gíria", não confundirá "liberdade de expressão" com libertinagem de expressão, considerando que "a nossa liberdade termina onde começa a liberdade dos outros"(K.Marx). Apresentará o conteúdo dos seus posts de modo satírico, irónico, sarcástico, dinâmico, algo corrosivo, ou profundo e reflexivo, pausado, daí o insistente uso de reticências, para que no termo das suas incursões, os ciberleitores olhem o mundo de uma maneira um pouco diferente... e tendam a "deixá-lo um bocadinho melhor do que o encontraram" (B.Powell). Na coluna à esquerda, o ciberleitor encontrará uma lista de interessantes sítios a consultar, abrangendo distintas correntes político-partidárias ou sociais, que não significará a conotação ou a "rotulagem" do Cidadão abt com alguma dessas correntes... mas tão só a abertura e o consequente o enriquecimento resultantes da análise aos diferentes ideais e correntes de opinião, porquanto os mesmos abordam temas pertinentes, actuais, válidos e úteis, dando especial primazia aos "nossos" blogues autóctones... Uma acutilância aqui, uma ironia ali, uma dica do além... Assim se vai construindo este blogue... Ligue o som e... Boas leituras.

domingo, 24 de julho de 2011

O CROCODILO III


O CROCODILO III
Terceiro episódio


De tão compenetrado estava... que este Cidadão se esquecera desligar o motor da Coty...
Apeando-se, os seus olhos não se descolavam daquele templo tão simples e singelo... Só o raio da portada é que destoava...
Ah, pois... você que apenas agora tomou contacto com estas crónicas maradas que sobrevivem há três anos, queira saber que de momento este praça não o pode atender porque vão decorridos dois episódios em que anda em busca do crocodilo perdido na Albufeira do Castelo do Bode!
Tendo em conta que o amigo se encontra para aí sentado frente ao monitor em vez de praticar exercício físico, o que lhe faria muito melhor à saúde, este rapaz tem o prazer de o convidar a ler o primeiro e de seguida, o segundo episódios que antecedem o presente, caso contrário não saberá enquadrar-se no enredo desta treta!
Registe-se porém que a leitura deste terceiro episódio é desaconselhada a pessoas sugestionáveis, a cardíacos e a menores de idade,  pelo que este praça não se responsabilizará quanto aos danos dai resultantes.
Pois bem, o coreto ocultava uma senhora bastante idosa, que para abreviar esta crónica, vamos apelidá-la da “Velha,” que enchia um cântaro de barro numa Fonte ali próxima... de facto ao encher o pote, metade da água escorria para fora porque olhava atenta em direcção a este praça... bem sabia que tinha um bom visual e era bastante jeitoso, nas nunca se tinha apercebido que até as raparigas mais idosas o admiravam assim tanto...

-Chrhrum crhum...

Isto fora um pigarreio com o intuito de acertar as cordas vocais...

-Boa tarde, senhora...

-Boa farde...

Neste momento cá o praça apercebeu-se que aquela velha poucos dentes teria...

Procuro um crocodilo...

-O que é ifo?

-É um lagarto enorme... aí assim com dois metros e tal de comprimento...

Explicou cá o Cidadão enquanto exemplificava esticando os braços de par em par, na horizontal e de palmas das mãos enconchadas!

-Afão o fenhor não fira o cafacete?!

-Ah pois,... desculpe!

Só agora houvera reparado que se tinha esquecido do penico amarelo enfiado na carola! Colocado o dito cujo sobre o retrovisor da máquina, voltou à carga... um pouco desconfiado com o que a velha manuseava enquanto o cântaro cheio de água, extravasava para o chão.

-Isso que a senhora tem nas mãos... são ovos de crocodilo?

-Não fenhor.. fão ófus das minhas galinhas!
-È que dizem que há um bicharoco desses ali na Albufeira do Castelo do Bode...

-Fá eu nunfa houfi falar nifo! Há por aqui uns lagartos nas árfores mas fão fastante fais fequenos!

Dali o Cidadão não se safava... para criar mais confiança ainda perguntou...

-Esta capela...está pr’ aqui tão isolada, porquê?

-Óh fenhor! Fem fe fê que não é de cá! Isto é uma história muito longa! Antigamente havia um fastor que andava por aqui com um refanho de ofelhas até que um dia reparou que elas comiam os tojos todos menos um mais verde e viçoso... quando se afroximavam dele destavam a esfirrar como se aquilo tivesse fimenta!

-Era o crocodilo?!!

-Não era, fão fenhor. Debaixo defe tojo que era rodeado for muitos alecrins, o fastor encontrou uma fonequinha muito bonita, protegida pela sombra.

-Era o crocodilo?!!

-Ó hóme, cale-se e oiça! Fegou nela, enfiou-a no barrete, levou-a para casa e escondeu-a numa arca! No dia feguinte quando foi à frocura da foneca, ela já lá não estava! Finha desafarecido. O fastor levou as ovelhas para o mesmo sítio e voltou a encontrar a fonequinha debaixo do mesmo tojo. Foltou a levá-la fara casa, e mais outra vez a fonequinha lhe desafareceu da arca! Na manhã feguinte já lá não estava!

-Foi o crocodilo que a levou!!

-Não fenhor! Fesconfiado, regressou ao tojo lá a encontrando, muito frilhante e fonitinha! Nos dias seguintes enfiava-a na manga do casaco, amarrando as fontas com dois atilhos e quando chegava a casa já ela tinha desafarecido oufra vez...

-O bicho comeu!...

Fale-se um momento se faz favor! Defois contou o que estava a afontecer à mãe e aos fatrões, e mais farde aqui nas aldeias ao redor já o fovo fodo fabia. Aquilo era um milagre da Senhora Virgem Santíssima.

-Então, não era o crocodilo?

-Afinal, o fenhor quer ouvir o resto, ou não? Despois construíram aqui a capela e o altar até está no sítio onde a fonequinha se escondia no tojo. Quando era garota, ainda me lembro que uma fez antes do Ciclone, afareceram umas formas muito esquisitas... eram umas serfentes muito grandes e às cores que vinham a desabar dos céus e o fovo das aldeias em volta correu todo para aqui a pedir à Senhora que os livrasse do tamanho mal que esfava para assentar, e a Senhora do Tojo acudiu-nos às preces!
-Antes do Ciclone? O que é que isso quer dizer?

-Fabe fenhor, for aqui os tempos dividem-se em anfes e despois do Ciclone... e aquilo aconteceu em Janeiro de 1938... e o Ciclone foi... 


-O Ciclone era um crocodilo?

-Arre faita cú fenhor é chato! O Ciclone não era um crocodilo, não fenhora! O Ciclone foi uma femfestade fedonha que levou fudo à frente! Foi no dia 15 de Fevereiro de 1941 que eu fem me lembro! Finha freze anos na alfura!

-Ah! Quer dizer que por estas paragens as eras se dividem em "a.C." Antes do Ciclone, e em "d.C." Depois do Ciclone?

-Fode ser! Mas há outra história inferessante! Uma vez as gentes eram fantas aqui à água que se desentenderam com a vez e armou-se uma briga que só farou sabe como?

-Não!... Não me diga que apareceu um crocodilo e deram todos às de vila diogo!

-Ai fenhor! Focê e o frocodilo!!! A água farou de correr e frontes! As fessoas viram um milagre naquilo e pararam a briga!!!! Frontes! Qual frocodilo, qual quê!!! Frontes!

-Obrigado por me ter contado essas lendas tão lindas, minha senhora. Decerto que saio daqui mais enriquecido. Bem-haja, mesmo!

-Adeus, fenhor.

Neste entretanto cá o rapaz resolveu espreitar por debaixo de umas silvas e de uns tojos ali crescidos...  podia ser que lá encontrasse o crocodilo ou resquícios do senhor sábio da construção que fora vereador camarário... mas népias! Nem vereador nem crocodilo! Nada!

-Enfão o fenhor fensa que a Senhora lhe vai afarecer aí debaixo do mato? É?

-Não... procurava outra coisa...

-O fenhor fem é muita fé!!!

Com a velhinha desaparecendo ao fundo da ladeira de terra batida que levava ao casario arruinado da Brunheta, este praça voltou a colocar o penico amarelo, cavalgar a Coty dando-lhe ao pedal de arranque que estranhamente fez o motor pegar à primeira tentativa e ala que se faz tarde...

-Milagre...

Pensou.
Quer dizer... em sentido contrário vinha a tal furgoneta branca com o casal de pescadores...

-Sinhôriii Compri calquer coisitããn! Uma camisolitããn qui á nôti faiz friúún? Vá lááá?!

Gritava o pescador pela janela, aos comandos da furgoneta enquanto ao lado, a Maria dava a mamada a um bebé!

-Não quero, não quero e... não quero!

-Aíiie cú hóme é um garganêêêruuun???!!

Berrou a Maria a plenos pulmões...
Uns castiços estes pescadores...
Chatos como a putassa... mas uns castiços...
Foi assim este praça rumou sem destino algum, mais para norte... com a motoreta no red-line... passando por umas quantas aldeias perdidas nos vales... Atalaia, Sentieiras, Carrapatoso...
Bairrada...
Sobreira Alta...
...e as Fontes...
Soberbo!
Que vistas espectaculares!
O norte do concelho de Abrantes é bastante rico em paisagens... Sempre com as águas da albufeira ao fundo...
Hummm
O crocodilo devia andar por ali... algures...
O sol descia no horizonte, proporcionando um fim de tarde fenomenal...
Em terrenos tão altos cá o Cidadão abt não se safava... se desvendasse o sáurio, seria junto às águas... e não ali...
Se bem o pensou, melhor o fez... desceu por uma ladeira abaixo com o motor desligado para poupar a gasosa que estava cara cum’ó catano, atravessando o povoado da Portela, seguindo-se a Cabeça Ruiva e...
-Porra!
Havia que meter travões a fundo porque ali se acabava a estrada!!!!
Atingira o fim da picada!
Do sáurio não haviam vestígios de maior...
A não ser... pois!
Era mais do que evidente!
Reparando nas margens, junto à água as rochas estavam completamente estraçalhadas!!!
Que horror!
Como animal deveria ser enorme!
O gerúndio afiava as garras naquelas escarpas ribeirinhas!
Um monstro!
O que o pessoal avistava nas águas era apenas a ponta do iceberg!

-Tirrimm...tirrrimm...tirrimmm!

Ora bolas!
Agora só cá faltava o tijolo falante!
Tinha ficado esquecido no fundo da mochila cor-de-rosa desbotada com o usrinho Pooh!

-Tirrimm...tirrrimm...tirrimmm!

Havia que tirar tudo de dentro... o chapéu, a toalha com a gaja boa estampada, a carteira, o protetor solar...e bem no fundo... o que era isto... Ah! O capa-grilos! 
Finalmente... o tijolo falante...

-Tirrimm...tirrrimm...tirrimmm!

Já vai!... Já vaaai!!

-Tou?

-biririririiririii!

-Sim, querida...

-biririri...ritititi...biriri!!!

-Não querida... Ando à procura do crocodilo...

-rrrrititititititibiririrti ti?

-Desculpa, vá!

-titititi bibibri titi ti!

-Não querida... estou aqui junto às águas da barragem, perto das Fontes!

-ninini fifitititiri rititi riri ri  riri ti?

Ah, desculpem também vocês que estão a ler isto!!
Era cá a Companheira a perguntar a que horas este praça chegaria a casa para o jantar e com outras observações que não interessam para o caso...

-ciccisisisiiri pirititi?

-Não querida. Eu cá me desenrasco... Como qualquer coisa numa tasca e pronto!

 -firitidi dititirirdi!

-Está bem, não te zangues, vá!

-tirirtibiciridi?

-Não! Durmo por cá! Logo me desenvencilho,..bem sabes como sou! Com três pauzinhos faço uma cabana!

-ninini fifitititiri rititi riri ri  riri ti?  firitidi dititirirdi!  rrrrititititititibiririrti ti?  tirirtibiciridi?   ninini fifitititiri rititi riri ri  riri ti?  firitidi dititirirdi ! rrrrititititititibiririrti ti?  ninini fifitititiri rititi riri ri  riri ti  ninini fifitititiri rititi riri ri  riri ti?  firitidi dititirirdi!  rrrrititititititibiririrti ti?  tirirtibiciridi?   ninini fifitititiri rititi riri ri  riri ti?  firitidi dititirirdi !   rrrrititititititibiririrti ti?  ninini fifitititiri rititi riri ri  riri ti dititirirdi ! rrrrititititititibiririrti ti?  ninini fifitititiri rititi riri ri  riri ti  ninini fifitititiri rititi riri ri  riri ti?  firitidi dititirirdi!  rrrrititititititibiririrti ti?  tirirtibiciridi?   ninini fifitititiri rititi riri ri  riri ti?  firitidi dititirirdi !   rrrrititititititibiririrti ti?  ninini fifitititiri rititi riri ri  riri ti


-Não é ikebana!!! É uma cabana, carais!”””

-dititirirdi ! rrrrititititititibiririrti ti?  ninini fifitititiri rititi riri ri  riri ti  ninini fifitititiri rititi riri ri  riri ti?  firitidi dititirirdi!  rrrrititititititibiririrti ti?  tirirtibiciridi?   ninini fifitititiri rititi riri ri  riri ti?  firitidi dititirirdi !   rrrrititititititibiririrti ti?  ninini fifitititiri rititi riri ri  riri ti


-Está bem, vá, não te irrites que isso faz-te mal ao coração...

-riri ri  riri ti?  firitidi dititirirdi !  rrrrititititititibiririrti ti?  ninini fifitititiri rititi riri ri  riri ti  ninini fifitititiri rititi riri ri  riri ti?  firitidi dititirirdi!  rrrrititititititibiririrti ti?  tirirtibiciridi?   ninini fifitititiri rititi riri ri  riri ti?  firitidi dititirirdi

-Vá... não gastes mais no telefone!


-rrrrititititititibiririrti ti?  tirirtibiciridi?   ninini fifitititiri rititi riri ri  riri ti? 

-Vou desligar... vá!... que amanhã a gente depois conversa com mais calma...

-dititirirdi ! rrrrititititititibiririrti ti?  ninini fifitititiri rititi riri ri  riri ti –

-Um beijinho... vá!

-rrrrititititititibiririrti ti?  tirirtibiciridi

-Prontos, já chega. Dorme uma noite descansada...

-tirirtibiciri ititiri rititi

-Vá... sossega que isto vai correr tudo bem...

-ini fifitititiri

-Pronto, está bem, desculpa lá!

-niffifi

Devem-se ter apercebido que cá a Companheira do Cidadão abt estava por demais furiosa...
Só para nós que ninguém nos ouve... quando ela se irrita, prega com cada seca que não vos digo, nem vos conto!!!!
Depois de desligado o tijolo falante e como a luz do dia ia escasseando, este raça deu-se a contemplar o ambiente. só agora reparara que à sua frente, formando um lombo a sair das águas, havia uma ilhota com um casario... Aquilo era lindo!
Só o Cidadão, a imensa massa de água, a paisagem, o marulhar, duas mesinhas de alvenaria... e a Coty vermelha Ferrari...
De súbito um gemido... um choro de criança... ou de mulher... ou um canto de sereia vindo do delta do rio, era trazido pelo vento...  
O Cidadão resolveu procurar a sua origem... avançando pela reentrância do braço de água... os gemidos sentia-se mais perto... talvez fosse o crocodilo estraçalhando uma criancinha com a enorme bocarra de oitenta e tantos dentes... subiu ao alto de umas rochas... e o que avistou?... Uma jovem tágide ousara subir as águas do Zêzere, entregando-se aos prazeres da carne... de blusa descaída denunciando os voluptuosos seios desnudados, cabelos pretos e longos pendentes sobre o rubro rosto adornado por lábios carnudos, aquela linda rapariga de saia arregaçada revelando os glúteos, sentava-se de cócoras sobre a cintura dum rapaz prostrado no chão duro... e em infindável frenesim, entregava-se a uma cavalgada épica como se mais mundo não houvera! Os gemidos libertados numa cadência constante soavam cada vez mais guturais, intensos, perdidos no espaço... e a ninfa transformara-se numa cruel vampira cravando os dentes no pescoço do companheiro! Ele exausto e ela, fogosa de todo, enganchada, sempre a dar-lhe, numa dança sem música nem fim. As ancas meneavam-se-lhe ritmadas como não fossem sua pertença. O casal abandonado aos prazeres da carne e aos desígnios de Afrodite, deusa do amor, deliciava-se com as forças mais animalescas e telúricas que a natureza humana poderia consentir... e decerto, acedendo às recomendações de Sua Excelência o Senhor Presidente da República... está claro!
O lindo par desconheceria que a profundeza das águas estava infestada de seres estranhos, de serpentes de água, de lagostins, de lúcios, de siluros, de cavacos e de jacarés enormes, caso contrário perderiam a pica toda...
Enquanto este cenário se desenrolava sob uma brisa suave, lá fora o Estado Português aguardava nove meses para atribuir uma dívida colossal ao produto de tanto amor e paixão arrebatadores... tinham que aproveitar bem os tempos enquanto a vida não lhes começasse a fintar as voltas... Naquele frenesim nem deram com a presença deste praça... Espreita ou empata f**** eram os únicos epítetos de que não quereria ser acusado...deixá-los ficar para ali abandonados e na paz do Senhor...
Já o Sol se ocultava por detrás do monte sobranceiro quando houve necessidade de trepar a pé até uma tasquinha que reparara existir naquele povoado da Cabeça Ruiva...de dentro vinha o som de uma telefonia e o aroma a sopa de nabo... é que cá o rapaz tinha resolvido permanecer ali até à madrugada seguinte porque seriam as horas mais indicadas para detectar a presença do réptil... pela fresca é que os bichos acorriam aos cursos de água para se alimentarem e outros darem caça às incautas presas...

-Boas tardes...

-Bõa nôti!

Ou isso...

-Há por aqui alguma coisa que se coma?

-Pode sêri uma sopinha?

-Sim, serve... o que vier à rede é peixe!

-E que mais há-de sêri?

-Sei lá... o que é que têm para aí a sair?

-Uns jaquinzinhos fritos...

-O que vem a ser isso?

-Ó senhor! São carapaus piqênos, embrulados em farinha e fritos no azête!

-Ena, ena! Vêm mesmo a calhar!

-Atão... o senhor já sabia o que era?

-Não... foi um amigo da internet, um tal Aqui-Ali-Acolá que mos recomendou!

-Outra gaita! Amigos na internete? Isso não é os computadores?

-São... porquê?

-Agente conhecemos as pessoas sem ser nos computadores! E p’ra bebere, o que vai sere?

-O que têm?

-Lambrusco!

-Lambrusco?! O que é isso?

-Bem se vê que o senhore não é de cá! Lambrusco é o vinho da casa, uma espésse de vinho verde feito da uva tinta lambrusca, que já se colhe pouca aqui na região e se entorna muito bêm com os jaquinzinhos! Onde se vê mais dessa vinha é ali para os lados de Martinchel e no Souto.

-Pode ser...

Constantemente vigiado pelo taberneiro, depois de em silêncio ter sido degustada uma bela refeição atestada com duas fatias de pão caseiro e rematada por uma bagaceira, chegara a hora de pagar a pequena conta e lançar a questão... fulcral...

-Senhor... por acaso não viu por aqui um crocodilo?

-Outro maluco!

Que resposta sêca!
Bolas!
Isto estava a correr mesmo mal...
Fizera-se noite lá fora e este praça tinha que arranjar sítio onde pernoitar... lembrou-se que no fim da picada vira um recanto com uns banquinhos e umas mesinhas redondas em cimento... aquilo era abrigado... como quem tem boca vai a Roma, foi lançada outra questão ao taberneiro... podia ser que pegasse...

-Senhor... por acaso tem um cobertor velho que me empreste para pernoitar ali em baixo junto à água?

O homem botou um olhar místico de piedade e admiração...

-Isso arranja-se... mas o senhor vai dormir lá em baixo?!

-Vou pois!

-Ouça cá, mas acredita que há por ali um crocodilo a sério? É?

-Quer dizer... ainda não o vi... mas trago cá uma fezada em como o hei-de encontrar!...

-Tá bem... tá...

Foi assim que cá o Cidadão se desenrascou... ali quase debaixo das mesas, deitado sobre a toalha com a gaja boa estampada, um velho cobertor por cima... e a mochila cor-de-rosa desbotada com o ursinho Pooh a servir-lhe de almofada... naquela noite escura não havia luar... o pio do mocho feria as encostas sobranceiras e o vento soprava forte...o marulhar das águas iam rebentando nas rochas arranhadas pelo sáurio... e ao longe, umas luzinhas cintilando  naquela Ilha do Lombo... do outro lado da margem... mais pontinhos luminosos e de vez em quando os faróis de um carro traçavam a escuridão do espaço longínquo... desafiando o firmamento... mais perto, um ou outro peixe chapinhava a superfície da água com o seu característico marulhar... estariam curiosos com a presença cá do rapaz...
O Cidadão olhou para o firmamento... tantas estrelinhas... a Via Látea... as sete estrelas da Ursa Maior... mais além... as trinta... estrelas da Cassiopéia... a Ursa Menor... e a Estrela Polar... a Andrómeda mais adiante... Perseus...
...parecia estar sorrindo... de quando em vez uma estrela cadente desviava a atenção até desaparecer no horizonte... ou caído no outro lado da serra...sabe-se lá... e assim este praça foi perdendo a noção do tempo e do espaço... entregando-se aos braços de Morfeu e ao “Rapid Eies Movement”...
Indeterminado tempo decorrido, sentiu que a água o encharcara... olhou na direcção da albufeira... mais uma ondulação a molhar-lhe o corpo... outra... agora, um chapinhar distante...
Era dia! 
Como as horas passaram rápidas!
Vindo do lado das Fontes, o Sol espreitava por detrás do casario!
Olhou melhor!
Impressionante!
Na direcção à Ilha do Lombo conseguia-se percecionar a ondulação progressiva... qual maremoto que se espraiava violentamente nas margens!
Avistara um vulto medonho progredindo das profundezas!
Do meio das águas erguera-se um enorme sáurio, um ser descomunal!
O bicharoco era um crocodilo dos enormes!
Um monstro colossal! O animal teria para aí uns três metros de envergadura!
Da enorme bocarra saíam dois serrotes de dentes ensanguentados!
Na vertical, erguendo-se das águas volteava-se no ar sistemáticamente e mergulhando de seguida, provocava um enorme chapão!
Outra linha de ondulação contínua esbatia-se violentamente nas margens! Mais uma vez o bicho mostrou o dorso, cortando a tona das águas a uma velocidade estonteante!
Mergulhou novamente...
Fez-se silêncio...
Um silêncio estranho...
Mais um salto para fora de água com um enorme peixe debatendo-se-lhe entre as mandíbulas!
Mergulhou novamente!
Ao longo da superfície avistavam-se cardumes em fuga, sulcando as águas agitadas!
Outro silêncio de morte!
Um odor a cadáver...
-Mas que horror!!!!
O jacaré, ou crocodilo ou o que quer que aquilo fosse, voltou a surgir à tona das águas revoltas...
Com a cabeça de uma cabra estraçalhada nos dentes!!!
Cá o Cidadão abt esperava que aquele colosso não se apercebesse da sua presença no local e na hora errados!!!
Conseguira ver-lhe os olhos alaranjados e flamejantes!!!
Bom... bom... Esta crónica vai longa p’ra caraças e com os dedos imprecisos, tremendo sobre o teclado! Isto pode dar cabo do coração!
Não estão reunidas as mínimas condições para prosseguir este relato!
Aguardem pelo próximo episódio pois cá o praça está necessitando uma cerveja bem gelada...
Até logo!
Ciau, ciau!
Ah! Pois! Para visitardes o Crocodilo IV, clikai aqui! 

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O CROCODILO II


O CROCODILO II
Segundo episódio


Aquela ladeira era mais íngreme do que a do Pico Souto. Imprimindo impulsos corporais na traquitana vermelha Ferrari, cá o Cidadão conseguiu sair dali para fora, verificando mais uma vez que o mundo é feito de altos e baixos e que para maioria das pessoas as subidas parecem mais íngremes do que as descidas... tudo isto em busca do crocodilo perdido, cuja crónica foi aberta no episódio anterior. Para o ciberleitor que só agora deu com este blogue marado cá do Cidadão abt, faça o favor de ir até este sítio, caso contrário ficará a apanhar bonés!!!
Chegado ao alto da povoação da Cabeça Gorda, à esquerda da rua este praça reparou numa casa protegida por um muro em alvenaria forrado a lajes de pedra tosca, encimado por gradeamento verde garrafa e dois enormes portões... decerto que com todo aquele aparato, ali não entraria lagarto!  Meditou se valeria a pena atalhar até ao Souto ou se seguir pelo asfalto... Optou pela segunda hipótese uma vez a Coty estava equipada com pneus de rasto cada vez mais slik... e não fosse ele poder baldear por aqueles carreiros abaixo, o bom senso falou-lhe mais alto, voltando à direita em direcção a um edifício a modos que esquisito a espreitar no meio do pinhal, que anteriormente lhe houvera chamado a atenção... 
O que seria aquilo?
Foi freando até conseguir dar meia volta, estacionando a Coty vermelha Ferrari junto aos portões que complementavam uma dupla vedação em rede...
Hummmm...
Ali havia gato...
Lá de dentro não saía ruído algum...
Uns quantos silos perfilavam-se à retaguarda daquelas instalações...
O alçado principal era parcialmente revestido a tijoleira vermelha com postigos pequenos...  protegidos das vistas indiscretas por persianas brancas...
“SMA” era a inscrição ostentada... junto ao telhado...
Hum... “S” de saurus... “M” de mandíbulae... “A” de alligatoridae...
Uma organização secreta... portanto...
E... “Saurus Mandibulae Alligatoridae” seria o lema daquela organização!!!
Ah! Um viveiro dos sáurios... querem lá ver?
Chegando mais perto... aquilo não cumpria as normas legislativas em termos de segurança contra incêndios florestais porquanto a vegetação não se conservava afastada nos tais cinquenta metros...
Só uma explicação seria viável...
Para dissimular a presença dos crocodilos quando os libertassem para apanharem algum sol... sim... porque estes bichos necessitam do aquecimento solar para eliminarem as matérias orgânicas que se lhe vão desenvolvendo nos intervalos das escamas... limbos, algas e assim...
Ali, seria o local exato...
Que nem se avistaria a partir dos satélites espiões nem no Google Map’s...
Os bichanos passariam dissimulados, entre os troncos e a sombra dos pinheiros... 
O ser humano era inteligente...

-O que quer daqui?

-Dããã...ssse!

Cá o Cidadão abt não se tinha apercebido deste homem novo de pele clara e um bocado cenoura, de cabelos alourados ondulantes ao vento...

-Olhe... veja bem que andava à procura do crocodilo!

-Ah! O que foi avistado na barragem do Castelo do Bode? Tem pouca sorte porque aqui é a estação elevatória de tratamento e monitorização da água que posteriormente é enviada para o concelho de Abrantes.

 Não... afinal aquilo não era um viveiro!...
Pois... em casa de ferreiro, espeto de pau...
 Aquilo era do Estado, da Câmara Municipal, da Ambientabrantes, dos Serviços Municipalizados de Abrantes ou uma cena do género, logo prescindiria das normas elementares de segurança... concluindo-se que as leis florestais se restringem às entidades privadas. Se chegasse ali um incêndio florestal... ou aquilo seria auto-suficiente espirrando água por todos os poros ou os fregueses iriam sentir o agravamento da facturação do bem essencial, com os encargos inerentes à recuperação das instalações.
 Ala que se faz tarde e a barriga começava a dar horas... soavam as treze badaladas de um sino... algures!
Dar o impulso ao pedal de arranque... um dois... três... e mais outro...
Prontos! O piston entrou em funcionamento, debitando umas baforadas de fumo, porque os gajos das bombas de combustível têm a mania de fazer a mistura a 6%, passando o motor a cagar óleo por todo o lado até entupir o miolo do escape!
Ora bem... Como o sistema de GPS orientado por uma gaja lá em cima no Po-Sat não se adaptava à Famel por esta estar desprovida de pára-brisas condigno onde se lhe pudesse cravar a ventosa, a navegação foi feita com Bioucas pelas 9 horas e a igreja das Fontes o longe...  
Rumando à Carreirinha do Mato...
Mais uma descida e outra subida...
Finalmente chegado ao Souto!
Hum... pela quantidade de vegetação silvestre que brotava nos quintais de algumas habitações bem se poderia concluir que parte daquelas gentes era devota da Senhora do Tojo... que era a Dama daquelas paragens.
E porquê procurar o crocodilo no Souto?
Fundamentalmente por três razões...
A primeira, porque bem perto dessa aldeia se localizava a tal ermida da Senhora do Tojo com forte cariz espiritual e que daria novo alento para este praça enfrentar as buscas seguintes. A segunda, porque havia a esperança de por lá encontrar um sábio da construção, pessoa que se candidatou às lides camarárias de Abrantes, supondo-se que muito teria para desabafar sobre lagartos... seria a pessoa indicada para encaminhar este desgraçado até ao ninho dos répteis... E a terceira porque a rapa de fome apertava cada vez mais!!!
Era hora de manducar qualquer coisita porque um homem não é de ferro e o ratito instalara-se definitivamente nas entranhas!
Cá o Cidadão foi desaguar num Adro com um Coreto azul e branco e a torre sineira da Igreja de São Silvestre por detrás...
Estacionado o veículo no descanso central junto ao Coreto azul e branco e como aquelas gentes lhe inspiravam confiança, deixou o penico amarelo secar os suores no farol e a mochila cor-de-rosa com o ursinho Pooh  repousando sobre o selim, sem antes ter passado a carteira para o bolso dos calções...
Era perceptível que o meio envolvente se inspirava numa arquitectura mourisca... a torre, o coreto, as casas brancas... e o café!
Tudo aquilo evocava a presença dos mouros bem antes de Dom Afonso Henriques e do Sargento Dupont terem ali dado entrada!
Pensando em entradas, foi precisamente isso que este praça fez naquele café com uma pá de Aljubarrota pendurada à porta, talvez para o caso do crocodilo dali se aproximar...
Aquilo sim... era uma boa idéia... portas reforçadas com duplo vidro e umas pegas enormes em metal cromado... com uma câmara de video-vigilância... e quatro cadeiras para lhe fazerem a espera.
Gente permanentemente de prevenção ao animal...
Ali, o bicharoco não teria grandes hipóteses!
Se o dinossauro aparecesse de bocarra aberta mostrando uma dentição brilhante, qualquer transeunte deitaria unhas ao cabo e malharia cachaporra no animal até chegarem os géninhos!
Dentro do estabelecimento, como este praça tinha o tempo a escassear-lhe nos neurónios, pediu uma dose de Kaviar bem regada a Dom Perignon que consiste num champagne francês da Moet & Chandon...
Não tinham!
Sugeriram o prato de lagostins do rio degustados com Alvarinho verde... bem gelado, optando este rapaz por saborear um pires de caracóis aconchegados a côdeas de pão caseiro e regados por uma loira molhada, fresquinha e bem espumosa...
Ooop’s...
Outra vez aquela horrível fixação mórbida a extravasar-lhe do subconsciente...
Era esta imagem, e não a anterior...
Manjado o acepipe e paga a dolorosa, chegou aquela hora horrorosa em que se vem para o Adro e se dá com uma luminosidade do camandro, ficando-se completamente pisco!
O raio da fotofobia estava a dar-lhe à força toda!
Um destes dias haveria que comprar uns Rayban... só ainda não o ousara concretizar porque as preferências oscilavam entre estas cangalhas e os Gucci!
Adiante, aquelas senhoras de idade praticando o desporto radikal do downloadding, davam ar de populares e sapientes idosas...
Talvez elas fornecessem alguma pista sobre a coisa...
                                     
-Boa tarde... minhas senhoras... se me permitem vou directamente ao assunto...
-O que é que o senhor queri?

-Desculpem... procuro o crocodilo...

-Ai precura um corcodilio? Vá ter com aqueles senhores que eles  lhe vendem um, ou talvez lhe expliquem onde os possa encontrar!

As senhoras foram espontâneas...
Cá o Cidadão abt dirigiu-se até junto de um homem magro com tez morena, de cabelos molhados e escorridos para a nuca, camisa branca, desabotoada, mangas arregaçadas e calças pretas de um clássico bem vincado, calçando sapatos de sola... decerto seria uma pessoa das lides do rio, bastante habituada a apanhar sol, um pescador tradicional... ou coisa assim...

-Boa tarde... aquelas senhoras além adiante indicaram-me que o senhor sabe explicar algo sobre os crocodilos...

-Boa taáardii! Vossemercêi procura um crocudili, éi? Venha cái que eu mostro-lhi! Tenhúú práli tantis! Até tenhu-lus cã bocábertãããn e tuuduuu!!!

Que sotaque mais estranho, o destes pescadores... não conseguindo disfarçar os ímpetos dum entusiasmo efusivo, o homem de tez escura encaminhou-se na direção da igreja...

-Orãn... Sinhõri... chegui àqui à carrinhãn...

Foi assim que este praça deu inicio a mais uma tentativa de deslindar o caso do crocodilo perdido... ou o homem já o teria capturado... ou...

-ÓòÓooo Mariiâããn... Véin aqui mostrári a mecradoriãn ao sinhôri!

Pois bem, agora o homem de tez morena abria as portas posteriores de uma enorme furgoneta branca...de par em par.
Houve necessidade de chegar mais para trás, não fosse o caso do bicharoco sair de lá disparado, vergastando tudo e todos com a cauda... São bichos imprevisíveis... estes lagartos escamados...

-Aiii???  Sinhôôôr! Nã tenha mêêdi... Chegue-si adiããntiii!

Com cautela, este praça foi-se chegando ao estribo do furgão... Coisa impressionante!
Nunca houvera visto nada assim!
Decerto que aquilo seria um viveiro ambulante!

-Ó Mariãããn... puxamããlin d’aquelas caixããns...

Já a dona da cintura larga, cabelo apanhado na nuca, ar exótico e vestes escuras compridas até aos pés cobertas por um avental colorido e debruado a renda, tinha dado um pulo determinado para dentro da caixa fechada daquela furgoneta entranhando-se num corredor entre caixotes de cartão...
Com o cheiro a cebola e o calor que vinha do interior, deveriam estar ali as incubadoras ambulantes dos bicharocos... sujeitos ao respectivo aquecimento permanente...
Provavelmente ovos de crocodilo no chôco... prestes a entrar em ebulição.
De súbito percepcionaram-se gemidos vindos da cabine... era isso... os sáurios recém nascidos seriam levados para frente da viatura afim de se ambientarem aos humanos... que assim os amestrariam... 
Administrando-lhes o cheiro a cebôlo, treinavam-nos a verter lágrimas de crocodilo...
-Orãã  áábri aí essa caixããn... Ó Mariãããn...É aí quelas estãúm?

-Éi,  pois!

Mergulhando as mãos no interior do caixote de cartão e com uma má vontade fenomenal, a senhora vai de tirar uma parga de camisolas de cores diferentes, umas lisas e outras às riscas...
Querem lá ver que os animais vêm embrulhados na roupa para disfarçar... o cheiro... ou seria para se poderem conservar mais aquecidos?
Ovo de crocodilo ou sáurio robusto, algo estaria prestes em sair daquele caixote creme...
Metia uma certa impressão como aquela senhora enfiava as mãos nos fundilhos sem mostrar receio em ficar com os dedos trucidados!!
Há mulheres de coragem... sim senhores!

-Diga cá... a senhora não tem receio... de meter aí as mãos?!

-Aqui têinn, sinhôriii!

-Mas isso... são camisolas! Carais!

-Aiee... nã era o que o sinhori queriãaãn?

-???

-Atão?

-Camisolas?!

-Nãã sinhôriii!! Póóóluuus! Um póóluuzinhu de marcããã!!!

-Não! Eu procuro um crocodilo com cauda dentes e tudo! Um animal ao vivo, vindo de África... ou da Amazónia!... Está a perceber?

-Um póluuzinhuuu da lacosti!!! Ora vêja si gostããã deeesti!! Há-los aqui com o crocodili de bocãã ããbéértaããn e com a boca fichadããn!Veja se esti lhi sérviiin!
  -Mas... não queria comprar camisolas... o que eu procuro é um crocodilo que as pessoas dizem ter avistado nas margens da barragem!!!

-Aiiie...  lagarti, lagarti,  lagaaááártin!! Isto nã são camisolãns... isto são póluus!

-??????

-Mariããn... eli há cá com cada umãããn! Queris lá veri que o home precurãn um crócudili di vérdáádiiin???

-Exquemunga-o, ó hómi! Exquemunga-o que êli nãã éi bôan rêinz!

-Olhãn, vai masséi vêri do garôtu à cabina qui está pra lá a berráári!!

-Ò sinhori... nã leva umãn cuéquinhãn?! Ólhi qui são barátas!

-Vai maséi vêri do garôtu à cabinãn... já todiiissi!!!

-Ó sinhori e ma calcinhãn? E uma calcinhãn... vá lá!

-Olhá criançã, mulhériii, qui na pára de chorárii!

-São umas calcinhãns leviiis!!! É tudu de marcããn!...

-Óh muléri! Agora túú! Vai lá ver da criançãã... maséiii!!

-Aiiiee sinhôres??? Querem lá veri qui o hómi teve este tempu tôdu práqui a zombari cagentii!

-Oiça cá! Vossemecêi vai-se assim emborãn só com os boxer’s vestidús e uma camisolinha dalçãns??? Mas diga lá, afinali o que queriii daqui!!!

-Procuro um crocodilo dos grandes!

Aiii  Mariiãn! Mostra aí essas tishãrtis da caixa piquênãã ao sinhôrii!!

-Não quero comprar nada!

-Vejãã!! Esta pretããn assenta-lhe bêin!!!

Entretanto a esposa do senhor pescador, de dentro da caixa do furgão esticava entre os dedos das mãos uma t-shirt  preta com um boneco verde estampado, exclamando a plenos pulmões:

-Levi estãã!

-Não quero! Se esse tecido fôr à maquina de lavar, encolhe com a temperatura e deixa de me servir!

- Aiii sinhôri... Isto é artigú dú bôum!

-Então... e o que diz aí na etiqueta?...

-Hulk, sinhôrii!...

-!!!
-Ómenes fique lá com uma camisolinhã de malhãn... ólhi que é de pura lãn virjêin!

- Quer dizer que o pastor era cioso com as ovelhas?...

-O quêi !?!

-Óh home, dexá-lo iri, quele nã vai lonji, láissenãúún!!

Ala para o celim da motoreta, pôr a máquina em marcha, que surpreendentemente pegou à primeira tentativa, rumando à Senhora do Tojo para lhe agradecer as sortes deste praça e pedir-lhe que lhe desse uma luz, um sinal, ou um indicio que o auxiliasse na descoberta do crocodilo perdido... talvez por lá encontrasse aquele senhor que sabe tudo e foi vereador dum pelouro de Abrantes...
Atravessada a rotunda à saída do Souto para quem sai ou à entrada para quem chega, este praça seguiu a direcção indicada pela placa...
Aquilo terminava num largo de terra batida, em que de frente havia outro Coreto com a ermidinha plantada à direita...
Humm...
Arcos de volta perfeita embutidos em paredes brancas realçavam um estilo muçulmano de primeira água... uma cornija amarela rematava o telhado, realçando o conjunto... aqueles muretes corridos... que serviriam de bancos para os devotos neles descansarem... vendo mais de perto, no hall interior do alçado principal, destacava-se um par de portadas em madeira ladeadas por duas colunas sem base, em alvenaria simulando o mármore escuro que terminavam em dois capitéis suportando um entablamento com arquitrave, friso e cornija, encimadas por um frontão triangular em simetria bilateral, tudo em madeira... o tom amarelo intenso aplicado nestes últimos elementos evocava o Budismo...e as arquitecturas orientais... aquela côr descontextualizava-se do conjunto da edificação...
Na sua conceção inicial, talvez o entablamento sobreposto ao pórtico se mantivessem ao natural...nos tons de castanho ou creme, consoante a natureza da madeira utilizada.
Concluindo a síntese analítica à arquitectura da ermida, neste templo deparamo-nos com uma fusão entre o Helénico, o Mourisco e o Búdico... um budomouriscismo  ou um mourobudismo helénico... que inté um gajo tinha dificuldade em balbuciar! Faltavam por ali umas amendoeiras, uns ramalhetes de Ikebanas com três pauzinhos... e quiçá, dois balões chineses pintados a vermelho com dragões dourados completassem o ambiente espiritual.
Por ora a crónica vai longa pr’a caraças e este praça está farto de digitar!
Se quiserdes saber mais notícias sobre a busca do crocodilo perdido, demandai o próximo post, aqui!

domingo, 17 de julho de 2011

O CROCODILO I


O CROCODILO I
Primeiro episódio.

Como a vida não está fácil, este praça resolveu trocar duas semanas de férias nas Caraíbas por um dia bem passado nas margens da albufeira do Castelo do Bode...
Subjugando o selim da máquina vermelho Ferrari atestada de véspera e elevando o piston ao red-line, fez-se à estrada na sua Famel Coty de duas velocidades, devorando o alcatrão a uma velocidade de sessenta quilómetros por hora, ressalvando as subidas, claro! O trânsito era escasso à exeção de uma coluna de viaturas militarizadas que o ousaram ultrapassar na rampa entre a Amoreira e Martinchel...
Naquela madrugada em que o astro rei prometia confrontar os seus raios com os raios cromados da Coty, este Cidadão que não pára de ter ideias maradas, de penico amarelo enfiado na mona, vestindo uma camisola negra de alças, de...
...estampados nos peitorais, pois havia-los trocado pela camisola negra com a imagem da Nossa Senhora de Fátima envergada daquela vez que foi em demandas da mamôa...
Ooop’s, não era esta a imagem... mas a que se segue...
Desculpem aí qualquer coisinha...
Pois bem, abaixo da cintura uns calções de banho brancos, sarapintados com corações grená e as havaianas entaladas entre o polegar e o maior completavam o conjunto, não esquecendo a pequena mochila cor-de-rosa desbotada, com o ursinho Pooh, resgatada aos Júniores, dos tempos em que frequentavam o infantário... 
que albergava o toalhão de banho, o chapéu à cowboy e o protector solar... como aquilo era de marca, ia durando.
Devido à velocidade infernal, o vento tentava arrancar os tufos dos sovacos e desbastava a peitoral mata que espreitava sob a cava frontal da camisola.
Deixando de satisfazer o alter-ego e passando àquilo que interessa, nessa celestial manhã o destino eram as águas cálidas da albufeira do Castelo do Bode... e com o motor a ferver, conseguiu ir até ao parque náutico da Aldeia do Mato... afinal àquela hora já o espaço da piscina flutuante se completava com bué da veraneantes, o que motivou este rapazola a estacionar a Coty no parque sem esquecer de a amarrar a roda da frente com uma corrente a um dos postes de madeira e muito menos desconhecendo o que lhe iria acontecer durante este vertiginoso dia.
A pé, deslocou-se mais para diante e besuntando-se com o óleo do protector solar, foi-se estender ali para a margem no sopé da mamôa... sobre a toalha com a gaja boa impressa. Teria o sossego garantido.
Ora voltado de barriga para cima, reparou que a proeminência da dita cuja era evidente, limitando a linha do horizonte, não permitindo visualizar o que acontecia para além do umbigo.
Ná... houve que se virar de barriga para baixo... assim estava melhor...
A Companheira não se quis envolver nesta ociosa aventura pois da última vez, indo à pendura na Coty, deu um tralho do camandro, ficando com umas postelas nos joelhos e nos cotovelos por sarar... estando de momento a ganhar coragem para novas viagens...
Foi mergulhado em tais pensamentos que cá o praça se passou para o mundo onírico... não sabendo muito bem o tempo em que se manteve a ressonar sonoramente... com umas apnéias pelo meio.
Tendo os calcantes virados para o limite da margem, nem se apercebeu do que se estava a desenrolar bem perto dele... pois nunca se sabe exactamente o que acontece por debaixo daquelas águas infestadas de lagostins e achigãs... De quando em vez a actividade onírica era interrompida pelo ruído de um barco a motor e pouco mais...
A certa altura sentiu que algo lhe roçava na barriga duma perna, não se recordando bem de qual... passado outro bocado, novo roçamento... e assim sucessivamente...
Estremunhado, acordou em sobressalto pois veio-lhe á idéia aquela noticia que tinha passado na TV sobre um crocodilo que fora avistado na albufeira!
Qual gato em queda livre, este desgraçado deu um salto rodopiando sobre si, e sentado sobre os calhaus sentiu uma desagradável dôr no cóxis, dando com um lulu branco, bem tufado na zona das patas, orelhas e cabeça, que ganindo desalmadamente, fugiu por aquelas fragas adiante...
Coitado do bicho, se calhar este rapaz tinha-lhe dado um pontapé sem querer... Com a maldita fotofobia entranhada nas córneas, olhou na direcção oposta reparando na presença de um bife de meia idade que por ali deambulava e que pela expressão facial um tanto ou quanto engelhada, mais dava a idéia de ser o dono do bichano... Este praça um pouco embaraçado com a situação, apontou para o monte de pêlo branco, metendo conversa com o mister, no seguinte tom:

-Olá!... Que cãozinho tão querido... o bichano é seu?... Como se chama essa riqueza?

-Fuck it!

Pois... Bem se via que o brithish não sabia falar português... apenas arranhava umas coisitas da língua lusa...
Foquit... foquit... foquit...???!
Ah! “Foca”!
O cãozinho chamava-se “Foca”!
Que nome engraçado para se dar a um bichano tão querido... quando cá o Cidadão abt oferecer um destes animais à Companheira, também lhe vai atribuir o nome... de “Foca”... A ver se não esquece... “Foca”...
Ali há tanto tempo deitado...que grande tédio, meu Deus!
Com um temperamento hiperactivo, como é que este praça se aguentaria tanto tempo parado quieto...
Ná...
Havia que ir fazer qualquer coisa...
Por exemplo... Ir à procura do crocodilo... pois é!
O crocodilo que deu nas notícias!
E se o pensou, melhor o fez... toca de enrolar a garota boa estampada no toalhão, enfiar tudo na mochila cor-de-rosa com o ursinho Pooh, soltar os cavalos à Coty e ala que se faz tarde!
Com a povoação da Aldeia do Mato à esquerda e sem destino traçado, foi parar ao delta da Cabeça Gorda porque daquilo que tinha assistido no National Geografic, os crocodilos gostam de estagiar banhos de Sol nas margens dos deltas...
Vai de estacionar a motoreta vermelha Ferrari debaixo de uns tojos e de calções brancos com corações vermelhos e havaianas nos pés, com as suas parcas dioptrias, toca de sondar as margens... sem imaginar que se estava a meter numa alhada... mas...
Nada de especial...
Só o marulhar calmo das águas lambendo os calhaus...
Ao fundo, um lagostim trepava a encosta...outro mais adiante... de resto... nada... ah... um terceiro arranhando as dedos dos pés deste praça!
Ah! Filho da mãe!!!
“Levaste-me cá com uma sarrafada que fostes parar bem no meio das águas”!
Foi assim que pela primeira vez na vida, um crustáceo atrevido ultrapassou a barreira do som!
Ora, mais acima uns pinheiritos desbastados pelo fogo de há uns anos, uns eucaliptos, umas silvas... uns tojos e assim... mais além... adiante...
"""Mas... o que seria aquilo?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?
"""""Cum caraças!!!
"Um arrepio atravessou todo o corpo deste praça!!!
Era incrível!!!
Chegando umas dezenas de metros mais perto e lá estava o dito cujo animal muito quieto, no meio da vegetação... dissimulado na sombra, debaixo dos tojos!!!
E agora?
O que fazer???
Chamar a guarda?!!!
Não! O bicho entretanto mergulharia nas águas, desaparecendo de vista!...
Correr ao campanário da igreja das Fontes e tocar o sino a rebate??!?!
Assustaria o aligátor!!!
Sim porque aquilo tanto parecia ser um crocodilo... como ser um jacaré!
Um pau!
Era isso!
Sempre houvera dizer que para nos defendermos do ataque de um crocodilo era enfiando-lhe um pau na bocarra aberta, momentos antes do tipo abocanhar!!!
Ora um pau! Um pau... porra...porra...porrinha... Um pau também seria útil para passar ao possível plano “B,” que consistia em assentar umas valentes arrochadas no lombo e na cabeça do réptil de modos a pô-lo atordoado, caso a primeira tática falhasse!!!
Ora... nem a propósito!... 
Aquele troço de pinheiro vinha mesmo a calhar!...
Devagar, muito devagarinho...evitando movimentos bruscos que pudessem chamar a atenção do animal... este rapaz aprochegou-se do madeiro... agarrando-o firmemente com a mão direita...
E agora, faltava a coragem... era preciso ter muita coragem e avançar... o tipo mantinha-se bastante quieto debaixo da folhagem, pensando que cá o Cidadão abt não o teria avistado...
Mas... carais... carais...
Além estava outro!
Ena pá!
E aqui bem perto do Cidadão, mais um!
Quatro!
Quatro ao todo... não...
Ali outro!
Ena, tanto crocodilo!!!
Vendo bem a coisa, este praça estava cercado por eles!
Todos tão quietinhos que não houvera dado conta de um viveiro de crocodilos!
Era o ninho!!!
Estava metido numa grande alhada!!!
E agora, há que dar às de vila diogo... ou desancar à paulada nos bichos??
A loucura é uma virtude e se morresse trucidado pelos bicharocos sempre ficaria para a história como o herói que detectou um viveiro de crocodilos na albufeira do Castelo do Bode, morrendo com glória numa luta desigual!
-À caaaarrgaaaa!!!
Foi desta forma que este praça, de pau em riste se atirou áquele que lhe parecia mais fracote...
Mas... c’um raio!
Os gajos vistos mais de perto pareciam estar camuflados!!!
E os olhinhos luzidios aparentavam ser de rostos humanos!!!
Mas cá o rapaz não tinha tomado nenhum psicotrópico!!!
Crocodilos com rostos humanos!!!
Aquilo decerto seria uma metamorose!!!
De G3?!
Ai... agora os crocodilos usam G3?! Como os tempos mudaram!!!
-Oh! Pá! Pára mas é lá com essa merda e desanda daqui para fora que nos estás a perturbar o exercício!
“?!?!?”
Uma voz feminina!
Um crocodilo fêmea?!
De súbito, à frente do Cidadão saltou uma moçoila militar de faixa dourada na presilha do bolso do dólmen!
Enaaa!
-Éééé... Lááaáá!
Aquilo eram os militares que estavam para ali todos camuflados... no meio daquela vegetação!!!
Que barracada do camandro!

-Desculpe, a menina não viu por aqui... um crocodilo?... 

-Não goze, senão vou ter que o deter!...

Foi tempo de largar a vara, dar meia volta e... volver! Com um sorriso amarelo, claro... foi hora de pegar na Coty, dar o impulso ao pedal e de penico amarelo enfiado na cabeça, a mochila rosa às costas e a camisola negra de manga à cava com os IRON-MAIDEN ao peito, foi de zarpar... quanto antes!
Zarpar dali para fora e desta crónica também, para que o pessoal não se queixe que os post’s são extensos e enfadonhos de se ler...
Como tal, cá o Cidadão abt resolveu dividir esta saga;
...por episódios, tantos quantos as averiguações no terreno, as sugestões, a criatividade, o humor e a imaginação forem ditando...
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