.

.

Este militante anti-cinzentista adverte que o blogue poderá conter textos ou imagens socialmente chocantes, pelo que a sua execução incomodará algumas mentalidades mais conservadoras ou sensíveis, não pretendendo pactuar com o padronizado, correndo o risco de se tornar de difícil assimilação e aceitação para alguns leitores! Se isso ocorrer, então estará a alcançar os objectivos pretendidos, agitando consciências acomodadas, automatizadas, padronizadas, politicamente correctas, adormecidas... ou espartilhadas por fórmulas e preconceitos. Embora parte dos seus artigos se possam "condimentar" com alguma "gíria", não confundirá "liberdade de expressão" com libertinagem de expressão, considerando que "a nossa liberdade termina onde começa a liberdade dos outros"(K.Marx). Apresentará o conteúdo dos seus posts de modo satírico, irónico, sarcástico, dinâmico, algo corrosivo, ou profundo e reflexivo, pausado, daí o insistente uso de reticências, para que no termo das suas incursões, os ciberleitores olhem o mundo de uma maneira um pouco diferente... e tendam a "deixá-lo um bocadinho melhor do que o encontraram" (B.Powell). Na coluna à esquerda, o ciberleitor encontrará uma lista de interessantes sítios a consultar, abrangendo distintas correntes político-partidárias ou sociais, que não significará a conotação ou a "rotulagem" do Cidadão abt com alguma dessas correntes... mas tão só a abertura e o consequente o enriquecimento resultantes da análise aos diferentes ideais e correntes de opinião, porquanto os mesmos abordam temas pertinentes, actuais, válidos e úteis, dando especial primazia aos "nossos" blogues autóctones... Uma acutilância aqui, uma ironia ali, uma dica do além... Assim se vai construindo este blogue... Ligue o som e... Boas leituras.

domingo, 6 de maio de 2012

O BISTURI II




O BISTURI II
Segundo episódio



-O senhor Cidadão já foi operado.

Um bote à vela sulcava a ondulação do estuário do Tejo...O Sol descia suavemente sobre o Mar da Palha que marulhava as águas nos escolhos da margem...
A o aroma da maresia transportava o pio das gaivotas... Sonho agradável... Uma voz melodiosa e angelical vinda de longe, fazia-se sentir.
 -O senhor Cidadão já foi operado...

Estranho... 
Ainda agora este praça se esticou na mesa e já ouvia uma vozinha cristalina dizendo que tinha sido operado?!

-Senhor Cidadão? Está-me a ouvir?

-Sim...

-Sou a Tatiana e estou aqui ao seu lado para o que fôr preciso...

Insólito... Havia que responder a tal apelo onírico...

-Que voz tão linda vinda de uma pessoa com um nome tão bonito... Tatiana... Será que cheguei ao céu e estarei ouvindo um anjinho?

-Não, senhor Cidadão, sou de carne e osso e o senhor encontra-se no bloco operatório.

-De facto, para isto ser no céu falta a música clássica.

Entre dois silêncios, soou outra voz masculina.

-Recuperou a consciência e o humor...
 Aquilo não devia ser sonho...
Este rapaz tentou abrir os olhos para poder conhecer a dona daquela voz...
Não conseguiu... Sentia as pálpebras pesadas... Insistiam em se manter unidas, juntas, coladas...

-Bem queria ver essa menina mas não consigo abrir os olhos...

-O senhor está em recobro. É natural que ainda não consiga abrir os olhos.

-Ouça-me esta. Você é alentejano?

-Não, mas se o fosse, que mal havia nisso?!

Novamente o timbre masculino soando detrás da nuca...

-Um algarvio, um beirão e um alentejano juntaram-se para debaterem o que no mundo atingiria maior velocidade...

-O que atingia maior velocidade? Como assim?

-O que seria mais rápido... Disse o algarvio que o que atingia maior velocidade era a luz, porque a luz se acendia mal ele ligava o interruptor. O beirão deu a sua opinião assegurando que o pensamento seria mais rápido do que a luz porque antes de acender a luz, já tinha pensado em o fazer. Então chegou a vez do alentejano.  “Ainda mais rápido do que isso tudo, é a caganêra... Quando nos dá a caganêra, nã temos tempo nem de pensarmos, nem sequer de ligarmos a luz!”
 Cá o Cidadão bem se riu por dentro ficando com a impressão que os músculos faciais efectivamente não se lhe contraíram...

-Desculpe... Não consigo abrir os olhos... O senhor é o doutor que me acompanhou na evolução da doença?

-Não. Porquê?

-É que o seu timbre de voz é idêntico ao dele...

-É natural. Estudámos todos na mesma casa... Sou o seu anjo da guarda... Recorda-se?

-Para anjo, é um bocado pecaminoso...

-E lá está ele.

-E a menina, quem é?

-Estagiária.

-Gostava de a conhecer...

-Tenha paciência mas você, daqui vai direitinho para a sala de internamento.

Fez-se novo silêncio.
Sentia que alguém mexia nos pensos colados ao peito e nos pneus da barriga...
Estariam a retirá-los...
Com tanto pêlo e não se sentia dôr alguma.
A cama trepidava, rolava.
Ouviam-se sussurros e passos de pessoas.
Provavelmente seria a viagem no sentido inverso... O regresso...
Nova tentativa de descolar as pálpebras... e nada... queria ver mas não conseguia...

-Com que então o senhor (nome completo) veio parar a esta casa? Sabe quem sou?

Depois de uns segundos a rebuscar aquele timbre de voz e ligeiro sotaque, veio à memória uma menina com quem este praça deixara de contactar há mais de vinte e sete anos...
Uma vizinha de outras paragens que nessa época teria treze anos...

-Olá, é a Ayesha! Disseram-me que a menina... desculpe... agora deve ser uma senhora, trabalhava aqui.

-É verdade. Quem diria que um dia nos voltaríamos a encontrar aqui.

-O que é feito de si?

-Olhe, tenho dois filhotes na escola. Você tem a memória auditiva muito aguçada!

-É verdade. Auditiva e olfactiva. São sentidos que se desenvolvidos nas noites de campo e nas caminhadas por essas serras adiante.

-Abra os olhos.

-Não consigo, menina... desculpe... senhora...

-Vá, tente.

-Não vai.

-Abra os óóóllhos, senhor!
 -Tanto que eu gostava de o fazer, para lhe poder espreitar as feições! Ainda há bocado tentei  para poder conhecer uma estagiária detentora de  voz angelical...

-Você está na mesma. Você não mudou, mesmo! Sabe? Se você não abrir os olhos não me chega a ver as feições porque vou acabar o meu turno!

-Que horas são, afinal?

-Três e meia.

-Da tarde, ou da manhã?

-Da tarde!

-De que dia?

-Do dia em que você foi operado.

-Que engraçado. Ao fim de tantos anos, agora tratamo-nos por “você”.

-Pois é, pois é!

Sentia que a enfermeira arrancava o penso que segurava o cateter enquanto a conversa ia fluindo... sentia as dores agudas de pêlos sendo arrancados...

-Posso dizer uma asneira?

-Diga à vontade...

-Chiça!

-Chiça?! Chiça não é uma asneira!

-Ai não é ma asneira? Vá lá consultar o dicionário de Alemão-Português e logo saberá!

-Como há muito tempo! E este Cidadão não mudou mesmo! Agora o senhor vai tentar levantar-se. Lentamente...

Assim foi. Habituado às abdominais, vai daí, num impulso e sem recorrer à alavancagem das mãos...
-Caramba! A coisa deu-se!" " "

Um ruído semelhante a roupa rasgando-se atravessou todo o quarto.
Acabadinho de sair do bloco operatório e logo entornara o caldo!

-Ai senhor Cidadão! O que fez? O que foi arranjar! Que desgraça!!!! Meu Deus! Valha-nos a Virgem Santíssima! Não se mexa! Fique quieto, por favor! Vou chamar alguém que nos ajude!

  -Esse homem é doido! Eu bem vi desde o início! Devia estar na psiquiatria!

O senhor Hitchcock falou e disse. Perdeu uma oportunidade de estar calado. Também, coitado, ainda não houvera dito nada...

-Tenha calma menina, desculpe... senhora...

Sentindo dores, cá o Cidadão passou suavemente a mão direita pela zona submetida à intervenção cirúrgica... 

-Não parece ser daqui... Ora deixe cá ver... melhor...

Inclinando-se suavemente para a esquerda, passou a mão direita pelo traseiro... depois pelo cós...

-Ah! Cá está! Foi daqui! Danos cú-laterais...

-Não me diga que...

-Não digo, não senhora nem muito menos é o que está para aí já a pensar... Diga-me cá a menina, desculpe, senhora, se estas calças são Levis...

-Se são Levis? Não! São roupa hospitalar. Porquê?

-E não são caras?

-Não! Porquê?

-É que acabaram de se rasgar... Deixe cá apalpar melhor... Desde o cós... até meio da nalga esquerda... Eu bem avisei que me ficavam apertadas! Cá têm o resultado.

-Ai que alívio, senhor meu Deus! Você está mesmo na mesma!!!

-Pois é, menina, desculpe, senhora. Vão-me substituindo os casquilhos do corpo mas este espírito mantém-se inalterado... mas isto está a doer... será normal?

-De um a cinco, classifique as dores que sente.

-Talvez... Um!

-Dispa essa blusa e essa calça pronta para o caixote do lixo e depois vista esta roupa, se faz favor...

Foi ao toque do tacto que se trocaram os farrpinhos e a seguir houve que arrear a giga...
Um cansaço apoderara-se do corpo e como ostras, as pálpebras insistiam em se manter cerradas...
Coisa de meia hora depois a dor agudizou-se, um ardor foi-se instalando e a comichão era tal que este praça teve de recorrer ao interruptor de chamamento...
A intensidade das dores era proporcional ao descerramento d as pálpebras.
Recuperada a visão constatou que a cama então vazia, tinha ganho um novo camarada e ao lado, o senhor Jorge vagara a sua...
Regressou a Ayesha... linda como sempre fora.
A serenidade do seu rosto moreno, redondo mantinha-se inabalável e seus cabelos negros, ondulados faziam com que o Cidadão se olvidasse das padecências.

-Olá! Já te vejo. Continuas linda como o eras dantes... A tua pele mantém-se morena...

-Não te esqueças que a minha mãe é goesa.

-Pois...

-Porque chamaste?

-À bocado pediste-me para classificar o grau da dor que sentia... é que subiu para 2,75... ou  3, talvez...

-Já te trago uns sedativos.

-Obrigado.

Cinco minutos após...

-Aqui tens. Bebe com esta água. Sabes, o meu turno terminou. Diz-me, mais uma coisa. Tens a mesma mulher do casamento a que fui convidada?

-Exactamente! A minha Companheira mais do que tudo e que me tem o castigo de me aturar as chatices!

-E tú as dela...

-Claro! Preocupo-me mais que as minhas lhe sejam leves...

-E filhos?

-Dois rapazes.

-De que idades?

-Crescidos, criados, bem nutridos e encaminhados...

-São assim como tú?

-É difícil... Quis o destino que o primeiro fosse mais espartano e conservador. Da direita à esquerda,dos mais liberais aos mais conservadores, dos mais novos aos mais velhos, debaixo do nosso tecto ninguém impõe as suas convicções, mas todos as expomos, as partilhamos, as discutimos e nos respeitamos nos ideais, nos usos, nos costumes e nas opções de vida...na hora dos sufrágios, cada um vota segundo a sua consciência... E assim, cada um segue o caminho que entende dar-lhe maior realização e felicidade...

-Vou-me embora. Gostei de te voltar a ver.

-Mal de saúde, mas isto arriba...

-Com esse espírito, a convalescença tornam-se-te mais fácil... Adeus. Só volto depois de amanhã e com o ambulatório não sei se ainda cá estarás...

-Adeus Ayesha, felicidades para ti e para os teus.

Deu para ver o trajecto para a casa de banho e regressar sem embarrancar nas camas dos vizinhos. 
Sentia que as energias falhavam mas com o alívio das dores, tentava manter os movimentos enérgicos, coisa observada pelo quarto elemento e pelo senhor Hitchcock...

-Senhor... a operação foi difícil?

-Sei lá! Foram os médicos que tiveram o trabalho todo.

-Não é isso. Ainda há bocado você aqui chegou e já se põe de pé, anda de um lado pra o outro como se nada lhe tivesse acontecido...é que a seguir, sou eu!

-Ó amigo! O problema principal está nas nossas mentes! É como levar uma perna às costas!!!

-Só de o ver, até me apetece ir já à faca!

-Faça assim. Separe a mente do corpo mas sem a decapitar. Pense positivo. Pense optimismo. Deixe de matutar na coisa ruim. Confie no trabalho dos clínicos! Pense que você não é o primeiro que aqui veio parar e que isto é a rotina desta gente! São banalidades!

-Não lhe dói?

-Você a dar e o girico a fugir-lhe! Dói porque que a actividade sensorial está nos conformes! A dôr é um simples sinal de alerta.

As horas escoavam tédias. 
Chegou a menina da janta... 
Mais um caldinho, um peixinho e uma mousse de morango... 
Enquanto o televisor debitava as últimas do país e do mundo, pela ampla janela as luzinhas cintilavam...
O manto negro da noite cobrira a paisagem por inteiro.
O semblante do senhor Hitchcock dava ares de descontracção...
Nesta noite olhava o televisor com outra determinação...
Comendo silenciosamente, o quarto elemento não dizia uma única palavra...

-Ó hóme! Não pense mais nisso!

-Não é a si que dói!

O quarto elemento estava certamente mal-humorado.

-Irra, que convencidos! Vocês pensam que a galinha da vizinha é sempre melhor do que a vossa!!! Convença-se que com essa maneira de pensar, as coisas se lhe tornam mais difíceis de ultrapassar! Isso é uma espécie de autoflagelo!

-O que é isso?

-Repare. Na páscoa já viu aquelas reportagens na televisão em que os filipinos se chicoteiam asi próprios para se assemelharem a Jesus Cristo durante a via-sacra?

- Como as pessoas que cumprem promessas, arrastando-se de joelhos no recinto de Fátima até sangrarem?

-Pois, por exemplo! Você não está aqui para cumprir uma promessa pois não?

-Não. Mas estou aqui para ser operado!

-Pois bem! Se a operação lhe correr bem, cumpra a promessa da autoflagelação no recinto de Fátima!

-Só se fosse doido!

-Então, está a ver a nóia! Porque se flagela psicologicamente aqui? Acredito que até já teve suores gelados e estados febris por causa da sua situação!

-Pois tenho! É da doença...

Não é da doença, não! É do medo que você sente! O que você sente é pânico à operação! Coração ao largo, home! Isso não lhe adianta e só lhe complica com o sistema cardiovascular!

-Tem razão...

Ao Telejornal seguiu-se outro elo...
O da debilidade de um concurso em horário nobre onde participantes esperançosos nuns cobres se sujeitam às humilhações verbais do rapazola arrogante e convencido que com esgares desdenhosos, péssima dicção devoradora de sílabas e redundante nos termos, recorre a terminologia indigna da condição humana e a movimentos bruscos, comprometedores das fixações da cabeça ao tronco, granjeando-nos com improvisado léxico da verborreia portuga. 
“Corja de azeiteiros,”  “cambada de arvéolas,” “gente fraquinha,” “súcia de asnos,”  “atrasados mentais,” "completamente ridículos," “ data de burróides,”  ”macacóides,” “ “infantilóides,”  “debelóides,”etecetera e tal, tomando por certas algumas soluções erradas e como erradas determinadas  respostas acertadas pelos concorrentes.
Mais vale passar pela situação degradante de correr à cadeia de hipermercados comprar um pacote de manteiga, no flashmob nacional de 50% de desconto sobre o valor das compras superiores a 100 €uros, oportunamente lançado no dia do consumidor... desculpem, do Trabalhador, com o povo galgando prateleiras e expositores numa atitude terceiromundista semelhante ao assalto aos camiões e aos pára-quedas com caixotes de ajuda humanitária lançados pelas aeronaves fretadas pela Organização das Nações Unidas, que infelizmente noutros termos cá o Cidadão houvera presenciado nas margens orientais do hemisfério sul do planeta Terra sacrificado pelos malefícios da cobiça de humanos sem escrúpulos que do pó vieram e no pó se transformarão, desconhecendo porém que a sua vida terrena é uma mera passagem de algo para algo! 
Em abono da verdade, ao apercebe-se da mobilização das massas nacionais, este Cidadão recorreu à telefonia fazendo zapping's por tudo quanto era emissora na suposição de que algum Orson Welles do Séc XXI tivesse resolvido repetir a gracinha de 1938, reportando a hipotética Guerra dos Mundos, com o dramático relato de uma invasão extraterrestre.
A pobreza de espírito do tal concurso deixou o Cidadão mais doente do que até então estava!
Ao que aquelas pessoas se sujeitam!
Vindo o carrinho do chá e das bolachas já o senhor Hitchcock ferrara a dormir perante a expressão alheada do quarto elemento que sentado à mesa, ia cruzando olhares com o Cidadão...

-Bon ápeit!

-Obrigado, amigo. Há muito que não ouvia assim umas palavras de conforto e ainda por cima vindas de alguém que acabou de passar por elas... Lá em casa...

-Eu sei... Escusa de o dizer... Coragem e pouca cisma!

Mais uma drágea ingerida e vai daí, foram desligadas as luzes e o televisor...

-Até amanhã, camaradas!

-Até amanhã.

-Até amanhã!

Regressou a voz do enfermeiro de turno.
A noite refrescara havendo que cobrir as orelhas com o cobertor de lã.
Não fora necessário mais do que um quarto de hora para que com as intermitências dos tubos fluorescentes este praça só regressasse dos braços de Morfeu na madrugada do dia seguinte...
Termómetro de ouvido, medidor de pressão arterial, saquinhos de soro, outros artefactos esquisitos e um punhado de auxiliares e enfermeiros invadiu o sossegado compartimento.
Era a hora do senhor Hitchcock e do quarto elemento um pouco confusos, alinharem no mesmo ritual pré-operatório dum Cidadão consciente que lhes tornara os minutos mais fáceis...
De quando em vez olhavam nesta direcção, tendo um sorriso confiante e um de piscar de ôlho por correspondência...

- Que Deus vos acompanhe.
 -Olá, senhor! Hoje vai ter alta hospitalar. Depois de o senhor doutor o ver e se tudo correr conforme o previsto, vai vestir as suas roupinhas, arrumar as suas coisinhas e aguardar que os seus familiares o venham buscar. A enfermeira chefe irá explicar-lhe quais são os procedimentos a tomar e para a semana regressará a uma consulta de rotina para verificarmos se tudo corre conforme o previsto.

Outra enfermeira! Diacho p'ra tanta enfermeira! Um tipo queria reflectir e não podia! Um desassossego completo!

-Gaita! Agora que me estava a sentir aqui tão bem, distante do mundo e do rebuliço, longe de tudo e de todos e sem preocupações de maior, é que me mandam embora? Não poderei ficar mais uns dias a descansar?

-Não senhor! Precisamos vagar a cama. Isto é serviço ambulatório.Sem preocupações de maior?A doença não o apoquenta?

-Ao menos até saber como correram as operações aqui aos meus companheiros de quarto!!!

-Tenha paciência...

-Pronto! Está bem! O que havemos de fazer! A menos posso tomar duche?

-Ó homem!!! Hoje não! Desmanchava-lhe o penso! Lave a cara e as partes baixas se quiser!

Como se dor não houvesse, lavaram-se os dentes e as partes pudengas, vestiram-se os trapinhos civis, tomou-se o pequeno-almoço composto de pão, doce e café-das-velhas, retribuindo este praça o sorriso e um obrigado àquelas admiráveis senhoras que meio intrigadas e confusas, deveriam estranhar a amabilidade vinda de alguém pensado, agrafado, cosido e recém-saído do fio da navalha cirúrgica.
A propósito, caro ciberleitor, um sorriso não nos custa nada e induz muita esperança.
É uma lembrança que perdura por toda uma vida...
Um sorriso não pode ser comprado, pedido emprestado ou roubado, e não tem qualquer utilidade enquanto não for esboçado!
Se na sua vida encontrar alguém cansado, distante, absorto, aflito demais para lhe poder esboçar um sorriso, deixe-lhe o seu, singelo, sincero, simples e optimista porque mesmo que alguém arrogante dispense sorrisos, ninguém precisará tanto de um sorriso quanto aquele que não tem sorrisos para lhe oferendar...
Mesmo que o seu autor não tenha palavras, domine outra língua,  não se saiba expressar ou seja surdo-mudo, um sorriso sincero no momento certo transmite tudo de bom a quem o recebe.
Agora imagine ciberleitor, se quem o recebe, também lho retribui?
No mínimo, será gratificante!
Quanto aos animais, esses sorriem-nos com o abanar da cauda...
Foi imbuído em profundos pensamentos que este rapaz não deu pela visita do médico e de tantos outros acompanhantes de batas brancas!

-Sim. Senhores... Reparem neste tipo de costura... Devido à delicadeza da cirurgia com riscos acrescidos para o paciente, tivemos que recorrer a um ponto diferente do comum... foi a primeira vez... a ver se isto corre bem...

-Foi uma costura diferente, senhor doutor?

-Um bocado delicada... Durante as próximas três semanas você poderá vir a sentir bastante desconforto... mas se tudo correr conformo o previsto... fica em condições...

-Disse o doutor que aplicou em mim uma nova técnica de costura?

-Okai... uma vez que lhe foi substituído um elemento estranho e de maiores dimensões... foi aplicado  ponto em xis... para que o trabalho não se desmanche...

-É a isto que se pode designar por ponto-cruz...

Os acompanhantes de bata branca saíram por uns instantes do quarto, percebendo-se que abafaram os risos enquanto o médico compenetrado em  sérios esgares, vociferou...

-Que engraçado!!!

-Que engraçado?! Eu é que não acho graça nenhuma! A mim é que me dói, me arranha e isto faz-me uma comichão do catano!!!

Mais risos vindos do exterior!

-Então? Colegas? Querem assistir a isto, ou não?!

O exército de bata branca voltou a circundar o Cidadão...

-Daqui você segue direitinho para casa sossegar e durante as próximas semanas vai tomar os medicamentos que lhe irei receitar... Não faz esforços, não bebe álcool, não anda n a rua, não entra em contacto com pessoas doentes, constipadas, etc, enfim, durante três semanas vai fazer uma vida celibatária!!

-Não me diga que não vou poder saltar de pára-quedas, fazer Bungee jumping ou fazer caminhadas?!

-Que género de caminhadas?!

-Montanhismo. Trepar montanhas...

Rostos de espanto entrecortaram-se em finos risinhos.

-E saltar à corda?

-Este homem não pode estar quieto! Este homem é irrequieto!Este homem é doido! Este homem não existe! Não brinque com coisas sérias! !! Faça o que eu lhe recomendo e sossegue senão vou ter que lhe receitar metilfenidato!

-Mais outro?! Assim não será necessário tomar o pequeno-almoço!

-Tem aqui este número de telefone. Se as cosas se complicarem, contacte de imediato os nossos serviço e passe bem.

Assim foi! 
Bacalhau esticado e receitas passadas em triplicado, chegou a hora das despedidas ao pessoal hospitalário como se tratasse de uma amizade travada a longa data em que este praça agradeceu do fundo do coração todo o trabalho e dedicação por eles dispensados, deixando o manifesto de admiração, elogio pelo trabalho desenvolvido, dedicação, paciência e estômago a que estes profissionais de saúde se tem de sujeitar, vastas vezes incompreendidos e maltratados pelos utentes. 
Éne rostos sorridentes e expectantes foram deixados por detrás das portas bamboleantes, regressado a caselas sem saber novas dos camaradas de quarto, e ao fim de três dias, dando uma vontade imensa de cronicar.
Cronicar, mas devagarinho!
Era premente limpar o pó ao teclado, alimentando o bendito vício da escrita...
Duas semanas após, houve um primeiro regresso ao “local do crime...”
Lá estavam os mesmos médicos, as mesmas enfermeiras, os mesmos assistentes, os mesmos estagiários e os mesmos auxiliares...
Engraçado como todos davam ares de terem reconhecido esta praça...
Chamado ao consultório e examinada a costura o médico rodeado pelo exército expectante de bata branca murmurou...

-Isto não ficou nada de bom... Isto não correu bem...

De seguida gritou!

- Meus senhores! Isto está óóóptimo!

-Dããsse! Ò doutor! Assustou-me! Ganhe calma!

-Sabe que esta foi uma intervenção algo delicada? Foi uma intervenção que envolveu riscos?

-Atão nã sei? Comigo, na minha vida tem sido tudo de risco, tudo delicado! Estou habituado! Sabe... Doutor... Quando novo, aí pelos meus dezasseis anos ingressei num curso de desenho técnico onde me habituei a dominar o risco...

-E  você com ideias! Quem mexeu neste aparelho? Isto ficou desafinado! É sempre a mesma coisa! Mexem, mexem, mexem e depois quem se segue que é que tem de afinar os graus!

A conversa era agora direccionada para os assistentes de bata branca cujos semblantes se carregavam...

-Ó Doutor! No tal curso de desenho técnico que lhe referi, o arquitecto bem nos avisava que o compasso e a mulher não se emprestam a ninguém... explicava ele que quando no-los devolvem, ambos vêm diferentes, desarticulados, desatarraxados, desafinados.. e quando por nós reutilizados, os traços nos saem irregulares e o projecto acaba borrado!
Novos risos abafados...

-O meu amigo tem as suas piadas... mas está correcto.. o que disse é bem verdade...

-No compasso ou... na mulher?

-No compasso, claro!! Bom... (pigarreando)Vamos ao que interessa... ora bem.. temos aqui um paciente cujos tecidos regeneram com bastante facilidade...facilitando a cicatrização...

-Kiwis e pau-d’arco... Senhor Doutor...

-Kiwis e pau-d’arco?


-Tenho por hábito terminar as refeições com um kiwizito e à noite, tomar uma infusãozeca de pau d´arco, prá sossega...

-Os colegas estão ao ver? São hábitos alimentares saudáveis que resultam a longo prazo... o chá de pau d’arco é óptimo para combater os problemas de estômago, desenvolvendo imunidade contra ataques virais...

-Chá, não! Infusão...Senhor Doutor...

-Como assim?

-Porque chá é o nome específico de uma planta... A Camellia sinensis com as variantes do chá preto, chá verde, chá branco, chá príncipe, cujas folhas  podem ser oxidadas, maceradas...

-Vá dar aulas de botânica e de medicina tradicional para outra freguesia! Isto não é Vilar de Perdizes, é um hospital. Não é um congresso de medicinas alternativas com o Padre Fontes.

-Que indelicadeza...

-Para terminar e porque tenho mais doentes para assistir, posso-lhe seguramente afirmar que durante todo este processo, a sua postura e a sua atitude ajudou bastante no sucesso da intervenção cirúrgica, tanto a nós que aqui aplicámos esta técnica pela primeira vez, como a si, para que as coisas nos tivessem corrido de feição e quando precisar de nós, cá estamos para o receber! Felicidades!

-Obrigado Doutor... Para lhe ser sincero, gostei de aqui estar.

-Vá tomar a medicação. Daqui a uma semana pode meter-se nas suas aventuras mas sem abusos, e duas semanas depois volte para o voltar a observar. Passe pela secretaria e acerte a data da consulta.Entretanto se as coisas lhe complicarem, tem aqui o número de telefone para poder contactar os nossos serviços.Sempre ao dispôr.
Com o derradeiro frenético aperto de mão cruzado entre médico e paciente, abalou este praça com a esperança, a fé e a confiança de um dia ali voltar pois Deus fez bela a amizade que nos guardará em unidade e decerto um dia nos tornará a reunir... 
Desculpem, são resquícios do escutismo e das introspecções que se praticam por estas bandas... 
Ah! 
Mergulhado num oceano de pensamentos, ia esquecendo o essencial... esta crónica teve inicio aqui.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O BISTURI I



O BISTURI I
Primeiro episódio

Esta crónica arde, pica, morde, dói e arranha o seu autor nos primeiros dois minutos do 25 de Abril mais enfermo dos últimos trinta e oito anos de democracia parlamentar...
Nem em estado de analepsia este Cidadão se pode quietar...
Impedido de praticar actividades exteriores, na perspectiva do intervencionado tratou de relatar na terceira pessoa a quarta experiência vivida numa valência hospitalar, desmistificando tão-somente determinados aspectos da intervenção cirúrgica, para o senhor que se segue, poder encarar o lado positivo dum hipotético encontro imediato do terceiro grau com o bisturi.
Acrescentaria que em toda esta saga constituída por dois episódios, apenas noventa e cinco por cento do relato se baseia em factos verídicos.
Vamos a isto que se faz hora...
Naquela sufocante tarde onde nuvens carregadas resgatavam as ralas gotas de chuva que salpicavam o casario disperso na verdejante paisagem, cá o Cidadão abt assinou o visto de internamento do Centro Hospitalar do Médio Tejo...
Feita a recepção e o briefing, este rapazola arrecadou o verde saco de viagem nas entranhas do estreito cacifo encastrado na branca parede do compartimento  mobilado a quatro camas e mesinhas de suporte...
Outros dois fregueses partilhavam esse amplo espaço onde um televisor vomitava lípidos do Preço Certo intercalados a insistentes gingles da querida Júlia que contrastando esta época de crise económica, instigava o telespectador ao consumo de lacticínios descongestionantes do trânsito intestinal...
Júlia Pinheiro com prisão de ventre...
Por recomendação do auxiliar, fora trocada a farpela civil por um quimono branco, algo justo e sarapintado de iniciais CHMT, chegado o momento de repousar os dorsais sobre o colchão rijamente ortopédico que complementava a estreita cama hospitalar...
Pela janela o ocaso embrulhava o horizonte enquanto a máquina de raios catódicos apoiada no suporte articulado que despontava a dois terços do pé direito, insistia em transmitir cenas de sem jeito...
Enquanto um dos vizinhos dormitava desalmadas ressonâncias, o outro, firmemente recostado sobre a metade elevada da cama, esgarrava tédios olhares...
Sem assunto emergente, cá o Cidadão lançou...

-Ó camarada... Aqui os novos inquilinos não têm direito a praxe?

Se o sessentão rubicundo de penca Hitchcock estava calado, a mais silencio se remeteu, libertando flamas dos profundos e esbugalhados olhos, como se a talhe de foice assim dissesse:
“Este gajo é comunista”
Ao televisor chegou a transmissão de um jogo de futebol e para a mesa vieram três bandejas dotadas de leguminosas sopinhas complementadas a peixinho traçado às postas cozidas com batatinhas e cenoura, maçã golden e papo-seco sem caroço...
O ressonante acordou para a janta e o senhor Hitchcock chegou-se ao prato, recuando de nariz torcido para a caminha sem trincar a comidinha...
De facto aquilo estava insosso...
Manjava-se a tradicional papinha para doentes, óptima para substituir anti-hipertensores e depuralinas recomendadas pela Querida Júlia... 
Depois de tudo mastigado, o ressonante retornou ao vale dos lençóis, engrenando a primeira, a segunda e a prise dum profundo sono, retornando os episódios do rapid eye movement...onde vociferava cenas ininteligíveis.
Por seu turno, mister Hitchcock regressou furtivamente à mesa do passado, despachando a golden em três trincas...
A senhora auxiliar recolheu as bandejas para as prateleiras do carrinho a pedir lubrificação, deixando tudo perfeitamente limpo e arrumadinho...
Já acamado, este impaciente deu conta que o diacho do jogo de futebol tinha dado espaço à dissecante Liga dos Últimos.
A retrospectiva, a expectativa, a frustração, a exortação, o diagnóstico e o prognóstico da bola comentados por flatulentos presidentes e sorventes treinadores de pastilha elástica, que não distinguem o singular do plural, o masculino do feminino, o sujeito do predicado nem os predicados das sujeitas...
Olhando em redor percebia-se que o Hitchcock se estava nas tintas para o esférico, preferindo fixar-se em qualquer ponto da parede oposta...
O outro canal era suposto passar overdoses de telenovelas com homens apertando gasganetes a mulheres.
No terceiro seriam as parvoíces dos apanhados sacados dos vídeos caseiros descarregados na Internet e apresentados pela cachopa das gâmbias anorécticas e pelo rapazola em consolidação hormonal.
Como poderia o Cidadão alguma vez gostar disto?!
Suspenso na pega triangular ligada pela correia de lona ao braço basculante da cama, oscilava o comando dotado de uns quantos botões que se ligava aos pés da cama por um espiral fio telefónico.
Junto a este, outro fio acabava num interruptor em forma de pêra... Olhando o nariz adunco do Hitchcock, lançou o Cidadão:

-Ò camarada! O jogo de futebol Interessa-lhe?

-Quero lá saber...

-Ó camarada! Não esmoreça... Olhe que desde há vinte anos é a quarta vez que habito esta casa e estou para aqui mais ou menos bem-disposto... Vá lá! Coração ao largo! Dá-me licença que mude de canal?

-Quero lá saber...

Feitio irascível tinha mister Hitchcock...
Bom...
Decididamente havia que mudar a frequência...
Não tardaria muito que a RTP-2 transmitisse o jornal das vinte e duas com a Sandra Felgueiras...
O comando à frente do nariz e à mão de semear...era uma tentação...
Zás!
“O comando é meu!”
 Pressionado um dos botões estremenhos, foi num truz enquanto os pés ficaram deveras elevados relativamente ao tronco...
Ora bolas!
Aquilo era o comando das básculas da cama...
Havia que fazer descer os pés...
Talvez pressionando o botão do outro extremo...
Gaita!
As costas subiram, só parando quase na vertical...
Ficara enchouriçado... de nalgas afundadas e o restante corpo erguido em U...
Por um talisco conseguira vislumbrar o olhar esbugalhado do Hitchcock.
Prontes...
Se os botões das pontas não faziam descer as articulações só havia que carregar num do meio...
Aquilo começou a subir, a subir, até se imobilizar mais perto do tecto do que do chão...
Bom...
Quanto mais mexia no comando, mais a situação se complicava...
Restavam três botões...
Reflectindo melhor...
Se calcasse n um desses botões e como as coisas estavam a decorrer, o mais provável seria a cama inclinar-se para um dos lados, despejando cá o Cidadão no soalho...
Ná!
Não há cá pão pr’a malucos...
Apertou firmemente o interruptor da pêra desencadeando um estridente besouro que jamais se calou até chegar o enfermeiro de serviço...

-Alguém chamou?

Indagou o assistente, olhando em três direcções...
Bolas! Aquele homem não reparara na situação crítica?

-Fui eu, senhor enfermeiro... Tire-me desta posição, se faz favor...

-O amigo não pode estar quieto? Veja só o que arranjou!

-Isto é complicado de se voltar a recolocar na posição inicial?

-Por que mexeu ai?

-É que queria ver a Sandra Felgueiras no noticiário das dez e supus que isto fosse o comando do televisor...

-Quando necessitar de alguma coisa, chame, carregando apenas no botão desta pera!

Por obra e graça dos dedos experientes do enfermeiro, a cama acabou por ficar no plano horizontal e bem perto do solo...
Assim estava mais confortável...
Subindo para uma cadeira, o clinico sintonizou o canal 2 da RTP onde a Sandra Felgueiras com seus vivos olhos e enormes lábios de moranguito pálido nos convictava notícias de última hora.
O camarada Hitchcock voltara-se de lado, virando as costas ao televisor...
O aparelho orientado de modo a que os pacientes de ambos os lados vissem as imagens de esguelha, deixara de ter utilidade para a ala hitchcockiana...
O suporte devia rodar...
Saindo da cama, este impaciente aprontou-se a rodar a base do televisor em cerca de quarenta e cinco graus para a esquerda e trinta para baixo, orientando o cinescópio na direcção mais apropriada para que mergulhado em vale de lençóis pudesse desfrutar do noticiário em total plenitude sem tentação de voltar a mexericar no comando que bem de frente, oscilava suspenso na pega...
Abalou a Sandrinha da TV e veio a senhora auxiliar oferecer cházinho de camomila e bolachinhas pelos três fregueses, um ressonando estridentemente e o outro em eterna posição lateral de pernas encolhidas e joelhos junto ao peito!
Mal a senhora deu de caras com o cinescópio fora de posição, largou o carrinho de mão que em desgovernados centímetros embateu nos pés da cama, indo ao corredor bradar pelo Firmino!

-Ó Firmino, venha cá que o televisor está outra vez a cair!

O senhor Firmino teve o cuidado de repor o aparelho na posição inicial, atarraxando demasiadamente os dois torniquetes do suporte, sem antes ter olhado de soslaio na direcção cá do Cidadão!...

-O senhor tem aqui um comprimido para tomar com o chá!

O certo é que depois do senhor Firmino pedir permissão para tal, apagaram-se as luzes, desligou-se o entretém e ao fim de meia hora uma cobra do camandro apoderou-se do corpo, dando vontade de ferrar no sono.
No silêncio do quarto houve oportunidade de assimilar as vocalizações do pessoal de serviço, percebendo que naquela casa o pessoal desfrutava de excelente ambiente laboral onde predominavam os timbres femininos que se tratavam com respeito e estima familiar num troca de saudações que aparentou a mudança de turno.
Os braços de Morfeu encurtaram a noite.
Pelas sete e picos da madrugada, cá o Cidadão acordou estremunhado com as intermitentes barras fluorescentes encastradas no rebordo da parede...
chegara o
Uma enfermeira bem simpática e reboleca ostentando barbelinha de mamã, advertiu este candidato ao bisturi que não poderia comer nem beber coisa alguma!
Havia que tirar o rabinho da cama, tomar duche de esfrega com os produtos higiénicos fornecidos pelo hospital eliminando os microorganismos mais resistentes e no final, secar o corpinho com o toalhão da casa.

-Posso lavar a cabeça?

-Pode, sim senhor!

-Ainda bem, que só assim me sinto fresco para ir à faca...

Despido o pijama hospitalar junto à cama, este praça ficou pelos slip’s de lycra negra oferecidos pela Companheira, coisa que fez arregalar os olhos do senhor Hitchcock, engasgar a ressonância do vizinho e rosar um bocadinho as faces da enfermeira assistente...

-Você não tem preconceitos...

-Pois não, cara senhora, pois não.

De toalhão branco ao ombro este rapaz perdeu-se nos confins do poliban...
O chuveiro vertia quentes fios de água que sagazes, serpenteavam da cabeça aos pés...
Água quente é água de doente...

-Senhora enfermeira?!

Gritou cá o Cidadão dentro do poliban...

-Sim? Está com algum problema?

-Será que posso virar a torneira para a água fria?

-Água fria?!

-Sim! Se não trouxer inconvenientes para a minha situação, preferia tomar duche com água fria...

-Que horror!!! O senhor é louco?

-Quero lá saber se é horror ou não! Só quero é saber se posso... se nesta situação não me será prejudicial...

-Pode e até é bastante mais saudável do que a água quente! Já vi que o senhor tem hábitos bastante peculiares! Com este tempo fresco, o senhor consegue mesmo?!

-E a senhora enfermeira nem sabe da missa metade!

Para início de dia, o esplêndido duche foi uma bênção refrescante que reprogramou os neurónios, despertando o humor e a boa disposição de espírito.
Enrolado o toalhão na cintura e saído do balneário, chegara a ocasião de eliminar o mau hálito...
Regressado à cama, este despreconceituado rapaz constatou que o sorriso da enfermeira revelara simpatia por este rapaz.

-O senhor vai deixar aqui todos os seus objectos pessoais, piercing´s, pulseiras, colares, o relógio e depois de vestir estas calças e esta bata, aguarda aqui deitado que hão-de vir aí os meus colegas para o levar.

Assim foi... Os objectos pessoais tinham ficado em caselas...
As justíssimas calças pregavam-se ao cós e a longa bata era laçada ao tronco por seis longas tiras de tecido.
Abalou a enfermeira e num vazio de espera, entraram outros dois enfermeiros que começaram por tratar os camaradas de quarto...
Em cada movimento, por cada mexedela, entre cada agulha, ambos os pacientes se sugestionavam!
Ai, para aqui!
Aaaaai, para ali!

-Ó senhor Jorge! Mas mal lhe toquei!

-Aaai!

Uns mais sonoros do que outros, havia “ais” suspiros, e assopros à descrição, de muitos timbres e para todos os gostos!

-Aai!

-Ufff!

-Aaaaii!

No quarto ao lado, o da ala feminina, nada daquilo se ouvia!
De lá, só conversas amenas e esporádicos silêncios.
Porra para tantos “ais” que até ao Cidadão lhe doíam no psíquico!
Chegada a vez última dos três, foi pendurada uma garrafinha de soro no mastro da cama, tentando o enfermeiro apanhar uma das veias nas costas da mão esquerda cá do Cidadão...
Este, ciente de que è detentor de artérias grossas e esquivas, perguntou ao enfermeiro se por acaso seria estagiário...
Um pouco indignado, o clinico disse que tinha muitos anos de experiência mas que de facto estava a sentir alguma dificuldade em apanhar a veia...ao que cá o Cidadão lhe sugeriu que procurasse do lado de dentro do pulso...
Prontos!
Se o ciberleitor é sugestionável, chegou o momento de se desligar deste post e viajar para outro sítio da web...
Por exemplo para o Passo a Passo abt.
Resolveu prosseguir a leitura?
 Cá o Cidadão abt não se responsabiliza pelas consequências que dai resultem!

-Porque é que o senhor perguntou se sou estagiário? Acha que não sou competente?

-Não é por isso! É que da última vez que passei por uma situação análoga, todos os enfermeiros se viram gregos para espetarem os três cateteres por dia e só uma menina estagiária é que me conseguiu espetar à primeira... Sem dor nem gemido...

-Tem experiência...

-É a vida... Dessa vez um dos cateteres estava ligado a uma enorme seringa laranja que foi injectando um líquido ardente durante trinta e seis horas seguidas cá na veia para baixar o ritmo cardíaco...

-Amiodarona...

-Talvez...veneno de serpente...

-E agora, porque é que você não se queixa?

-Não me queixo nem nunca me queixarei grande coisa porque a dor é psicológica, reside no nosso cérebro e o trabalho que você está a desenvolver é para melhorar a minha qualidade de vida.

-Sabe que a sua dor serve de aviso para nos podermos orientar no tratamento, por isso, se lhe doer, queixe-se!

O certo é que numa pincelada de álcool e três palmadas depois, a agulha do cateter provocara uma dor fininha e aguçada, enterrando-se firmemente na veia interna do pulso, passando o soro a escorrer da garrafinha para o tubinho de cristal onde o cateter se diluía com o sangue que recuava do pulso!
De seguida os senhores enfermeiros cobriram o corpo deste praça com espessa colcha de algodão branco, destravaram a cama subindo-lhe os gradeamentos laterais, ficando cá o Cidadão com a sensação de enjaulamento...
Um gajo não podia sofrer de claustrofobia...
A cama ganhou vida rolando entre pares, saiu do quarto e avançando silenciosamente por intermináveis corredores em que o Cidadão prostrado de pés para diante, via plafond's luminosos, aspersores de incêndio, altifalantes encastrados e juntas do tecto falso movimentarem-se em sentido inverso...
A trepidação miudinha e a viagem na horizontal, enjoavam qualquer mortal...
Rostos curiosos e fechados de pessoas estranhas cruzavam-se pelas laterais enquanto o maldito enjoo se fazia sentir, intenso...
O Cidadão lançou:

-Olá galera! Tudo bem-disposto?

Não obtivera resposta.
Rostos das pessoas estranhas e multicolores limitavam-se à contemplação.
O Cidadão tentou olhar por detrás da própria nuca, distinguindo o queixo e a bata branca do enfermeiro que empurrava a maca...
Das outras vezes que se vira numa situação idêntica, foi-lhe dado um comprimidinho que colocara debaixo da língua e lhe fizera perder a noção espaço-temporal da coisa...
Devem-se ter esquecido desse procedimento ao que tinha a vantagem de poder registar o desenrolar dos acontecimentos, in loco.
A caravana entrou no ascensor, induzindo estranho silêncio dando a noção de que a tranquitana estaria a descender...
Ao abrirem-se as portas na nuca deste rapaz, o conjunto progrediu em marcha contrária, ou seja, agora rolando no sentido da cabeça para a frente...
Sempre era melhor assim do que ir com os pés para a frente...
Em vez de se ver o corredor a vir-se, via-se o corredor a ir-se...
Enjoava menos...

-São dez horas e onze minutos...

-São dez horas? Pois são! Não lhe dissemos que tinha de se despojar de todos os objectos pessoais? E traz o relógio consigo? Esqueceu-se? Onde tem o relógio guardado, senhor?

-Não trago relógio nenhum... Senhores enfermeiros...

-Se não traz relógio, como acertou na hora?

-Foi um relógio branquinho, redondinho com ponteiros e números grossos e negros  que passou por mim e ficou cravado no cimo da parede lá adiante...

-Livra! O homem tem ideias!

-Pois tem...

Afinal havia outro.
O Cidadão entrou num compartimento onde uma parga de humanóides envergando batas, máscaras e toucas verdes o esperavam...
A cama foi descendo na horizontal até atingir o nível de uma placa metálica em tons de verde-garrafa, fazendo recordar o enorme quadro de lousa que na escola primária fora o terror do Cidadão...
Voluntariosos clínicos tentavam elevar o troco e as pernas deste, talvez com o intuito de o mudarem para a placa verde...
Sem sucesso...
Tinham sido muitos anos de caminhadas e pese a elegância aparente, subtraindo a barriga, este corpo era compacto e maciço demais para se levantar de ânimo leve...

-Ó senhores! A fazerem tanto esforço ainda acabam por dar cabo da coluna e irem  parar ao hospital!!! Porque é que eu não posso dar um jeito nisto?

-Está bem. Vire-se para o lado direito. Agora puxe-se para trás.

E assim foi!
Mal deu conta, este impaciente assentara os costados sobre a placa verde, afinal aquecida...
Dois clínicos cobriram as pernas e metade do tronco com mantas térmicas forradas a alumínio, fazendo com que a concentração de calor se elevasse em consideráveis graus centígrados...
Cá o Cidadão atento às manobras, colocou a imaginação e o humor ao serviço da comunidade, observando...

-Cum raio. Mais pareço um salame pronto a entrar no microondas... O que vem a ser esta chapa quente?

-É um transfer.

Resposta máscula de alguém que devido à rectro-posição, não se lhe discernira a fisionomia.

-Ah! Bom... Entendi. Ali adiante aos meus pés deve ser a sala das autópsias e a seguir a morgue... E no meu lado esquerdo temos o bloco operatório... Acertei?

-Não acertou. Aliás, só acertou na segunda parte.

Voltou a soar a tenórica voz grave de trinta jovens anos, vinda da nuca.

-Ainda bem...

Não se percebeu como, mas o diacho do trasnfer encostou-se pela esquerda a outra mesa branca que subiu alguns centímetros...
Desta vez a mudança foi diferente.
Sem saber como, de repente estava deitado nessa mesa.
Houve mexedelas na garrafinha do soro e um produto acoplado à torneira do tubo que ligava ao cateter espinhado no pulso...
Qual serpente, ora sobrepôs-se uma báscula extremada por luminoso rodízio de projectores...
Outro braço articulado ostentando uma bandeja creme avançou no lado oposto...
Um carrinho parecido com a mesinha do manjar hospitalar rolou silencioso até junto aos pés...
De ambos os lados, rostos ocultos em toucas e verdes batas rodeavam este desgraçado...
O momento aproximara-se...
Um monitor rolou para perto...
Eram colados uma série de finos fios no peito, junto ao coração e nas laterais do tórax, e uma mola mordendo o indicador esquerdo...
Havia que descontrair...

-Olá! Há muito que eu não era o centro das atenções!...Projectores de luz só encontro aqui ou nas salas de espectáculo! Poderei afirmar seguramente que sinto o meu ego plenamente preenchido...

Zero!
Cá o Cidadão não obteve resposta...
Só o bip, bip, bip, bip, vindo de uma espécie de carregador de baterias com ecrân cheio de gráficos digitais e olhares compenetrados, emoldurados em rostos sérios, de bocas e narizes encobertos pelo verde das máscaras, recitando palavras esquisitas como, fórceps... pinça... crile... dilatador... roeder... ganchos... esterilizador... bisturi... agulha... estilete... seringa... tesoura... afastador... porta-agulhas... compressas, e que iam enriquecendo o vocabulário deste vigilante.
Como um só utente dava montes de trabalho a tantos médicos...
Da nuca, lentamente foi surgindo uma máscara daquelas que caem do tecto dos aviões quando entram em turbulência...
Rodando a cabeça para trás este candidato deu-se conta que à cabeceira outro clínico se encarregava de aproximar progressivamente a focinha translúcida...

-Olá! Para que é essa máscara? Compreenda que estou um bocadito apreensivo com a situação...

-É oxigénio fresquinho...

Ah! O dono da voz!

-Repare... Sinto que tenho os braços a cair... Esta marquesa deve ser estreita e como eu tenho os ombros largos, os braços vão ficar pendurados para o chão...

-Não faz mal. Eles não lhe vão fazer falta agora...

-Mas afinal, o senhor está a aproximar-me cada vez mais essa mascara da cara?

-É arzinho fresco. Descontraia.

-Descontraído estou eu! Estou é a sentir umas picadas nos testículos... Isto será normal?

-Uns sentem picadas nos testículos, outros nas palmas dos pés. É conforme a pessoa. Cada caso é um caso...

-Mas afinal o que faz o senhor aí atrás de... de... de mim?

-Agora, sou o seu anjo da guarda.

-O meu anjo da guarda? Como assim?

-Sou o médico anestesista que o vai acompanhar durante todo o desenrolar da sua operação e zelar para que tudo lhe corra bem. Vou vigiar o seu ritmo cardíaco, a sua tensão arterial, as suas funções vitais, a sua respiração.

-Olhe cá! Sinto os tomates a arrepanharem...será que isto é ao que se designa de “perder a tesão”?

-Exactamente.

-Diga-me outra coisa. Porque é que me estão a retirar a marquesa debaixo do corpo?

-O homem não há meio de induzir.

-Está quase...Está quase...

-Não induzo, mas deduzo. Está... quase... o qu...

Compreendei que esta crónica foi escrita lentamente e em estado de convalescença, entre dores, ardores, arranhadelas e picadelas, portanto dai tréguas regressando no próximo post se assim pretenderdes saber novas do Cidadão abt na ponta do bisturi.